Liquidações, promoções, prêmios e absurdos
A unidade Arthur Alvim da chocolateria Cacau Show está premiando um ovo de páscoa de 6 kg* e cerca de meio metro de altura. Quando passei em frente à loja e presenciei isso, fiquei espantado. Que caralho uma família média (cerca de quatro pessoas, certo?) pode fazer com tanto chocolate? Nessas circunstâncias, seria cerca de 1,5 kg por pessoa. Um absurdo. Se a quarta parte fosse comida em um dia ou em uma semana, uma coisa é certa: a pessoa teria diarréia, início de obesidade, acnes e diabetes grau 9.
Imagina então se um ovo desses é premiado para um solteirão? É, o cara comprou umas trufas para presentear uma pretendente ou uma amiga e preencheu o cupom que lhe dava direito a participar da promoção. Quando saiu o resultado que confirmava sua vitória, o rapaz já nem falava mais com a pretendente, tinha contraído ódio de chocolate e, por mais que ele se esforçasse, saberia que agora teria um fardo feito de cacau para carregar para casa. Se ele fosse esperto, a quantidade de chocolate poderia ser trocada com o senhorio por um mês de aluguel. Ou ele poderia rifar o ovo. Só não sei se ainda compram rifas e se ainda vendem cartelas de rifas com nomes de mulher (Lisandra, Lorena, Daniela, Ester, Ana Paula, Maria, Leila e Joana sempre estavam presentes em um dos quadrantes)
Outra premiação absurda é o milhão oferecido pelo programa Big Brother Brasil, da TV Globo. Explico. R$ 1 milhão é uma quantia razoável para se colocar a vida em ordem. Compra um bom carro, uma boa casa em um bairro decente e ainda sobra para viagens, uísque, cerveja, carne vermelha de qualidade e uma TV com mais de 30 polegadas para assistir aos jogos de futebol. O problema, no caso, é que, salvo raras exceções, poucos participantes são preparados para ganhar o prêmio.
Quem não se recorda de Dhomini, vencedor da 3ª edição do programa? O rapaz, à época, ganhou R$ 500 mil e, em pouco tempo, torrou tudo com mulherada, cachaça e putaria. Não o estou julgando. Sem preparo emocional, talvez eu também fizesse o mesmo. Mas o problema é que, depois dessa sorte, o cara não terá talento para ganhar quase mais nada na vida. Não é bonito. Pelo contrário, tem o naipe do típico cachaceiro brasileiro - roliço, vermelho e pé inchado. Não é ator. Diz que é cantor, mas isso o Roberto Carlos diz que é há 50 anos. Enfim. Na atual edição, mais exemplares de gente que não merece ganhar o prêmio.
Naiá e Ana Carolina. A primeira, uma senhora de idade que terá pouco tempo ou bom gosto para gastar o que conseguiu. A segunda não precisa de R$ 1 milhão porque:
A – Já é burguesa estilo enjoada
B – Se quiser, posa na Playboy e embolsa pelo menos 1/3 do prêmio conferido ao vencedor da casa
C – Essa é a mais importante: é mimada, sem gosto, estridente, burra, cafona e certamente vai gastar tudo em jóias de coleções passadas, roupas de madame classe média, silicone nos seios e cirurgias plásticas.
Aliás, quase todas as mulheres que participam do BBB se encaixam no perfil da Ana Carolina.
* Esse post não é patrocinado pela referida loja
Queimando Cartuchos


Nessa semana, dois personagens do meio esportivo mostraram como queimar cartuchos e parecer completamente idiota frente à opinião pública. O primeiro e mais emblemático deles é o sobrinho do mito Ayrton, Bruno Senna. O piloto, crente que ocuparia um dos cockpits do espólio da equipe Honda, queimou a língua e cartuchos ao deixar uma temporada promissora na GP2 Series para arriscar uma estreia por baixo na Fórmula 1.
Com 25 anos de idade, Bruno, o Senna, poderia ter esperado mais para arriscar um avanço na carreira. Afinal, ele era um dos principais pilotos da GP2, ao lado do brasileiro Lucas di Grassi. Esperar mais alguns anos para receber uma proposta justa de uma equipe média ou grande da F1 não seria mal negócio de forma alguma. Mas não, o jovem metido a "paquitão" foi na conversa de Nick Fry - que até semana passada era o principal diretor da ex-Honda - fez contratos de gaveta e viu Ross Brawn passar a comandar tudo e decidir quem iria disputar o campeonato seria o velho, carismático, competente e azarado Rubens Barrichello.
Taí uma lição para quem confia muito no próprio taco sem ter demonstrado razões para isso. Isso é comparável ao Wander Wildner afirmar poder assumir o posto do Andreas Kisser no Sepultura, caso o guitarrista venha a abandonar a banda. Ou até mesmo a Fafy Siqueira dizer que pode interpretar Marilyn Monroe em uma cine biografia de Hollywood. Não dá. Há todo um entrave na questão. Claro que o Wildner teria que aprender (e muito) a tocar guitarra para assumir o posto proposto e a Fafy Siqueira teria que, no mínimo, nascer de novo (não desmerecendo a profissional, que é uma ótima humorista). Não é o caso de Bruno Senna, que só precisa amadurecer pessoal e profissionalmente e abaixar a bola (assim como Nelsinho Piquet, que até hoje não mostrou boas atuações na equipe Renault de F1).
O segundo exemplo emblemático é o pedido de demissão de Antonio Carlos Zago do cargo de diretor técnico do Corinthians. O ex-zagueiro deixou a carreira de jogador em 2007, quando saiu do Santos para assumir o cargo administrativo no Corinthians. Chegou ao Parque São Jorge cheio de promessas. Implantou algumas boas idéias e, de certa forma, ajudou o clube a se organizar quando havia uma pane geral por conta da queda à Segunda Divisão do Brasileirão. No entanto, Zago recebia R$ 40 mil por mês e o salário talvez fosse demais comparado às suas atribuições profissionais.
Prova disso foi a presença do diretor em uma balada de Presidente Prudente em companhia do jogador Ronaldo. Onde já se viu funcionário do alto escalão de uma empresa indo pra balada com um funcionário que está se recuperando fisicamente, como é o caso do Fenômeno? O ocorrido, claro, é resultado de irresponsabilidade de ambas as partes, porém quem acabou com a imagem arranhada foi o próprio Zago. Afinal de contas, um diretor deveria zelar por bons comportamentos dentro do Corinthians e cobrar isso dos jogadores. Resultado da ópera? Antonio Carlos pediu demissão, pois sabia que seria insustentável se manter no clube após mais um escândalo que se soma à sua polêmica biografia que também conta com alguns casos de racismo (tanto por parte dele contra um jogador negro, como parte de adversários italianos, quando ele atuava na Roma). A justificativa do ex-jogador para puxar o carro do Timão? É que ele gostaria de investir em uma carreira como técnico de futebol. Sei. Duvido que se nada disso tivesse acontecido, Antonio Carlos Zago deixaria de mamar nas tetas de Andres Sanches antes do atual presidente corintiano ser substituído.
O Festival Mais Mala da História

Nem aconteceu ainda, mas aposto que o festival Just a Fest será a celebração mais mala que se tem notícia na história dos shows musicais. Com a reunião das bandas Radiohead, Kraftwerk, Los Hermanos e Vanguart não poderia ser diferente também. E a afirmação não é direcionada apenas ao som de cada uma das bandas, mas também aos seus respectivos fãs. Seria leviano dizer que o Los Hermanos não tem importância para a música pop produzida no Brasil na última década. Arrisco dizer até que a banda é o melhor e mais importante achado musical brasileiro em anos e que dificilmente será superada tão breve.
Quanto ao Radiohead, fez ótimos discos até o "Pablo Honey", depois entrou na onda de parecer cult e lançar apenas projetos cabeçudos. O Kraftwerk tem sua importância por ter inventado a música eletrônica, mas garanto que o mundo estaria muito melhor sem esse estilo em questão. Quanto ao Vanguart, ainda não dá para ter uma opinião formada. Prefiro deixar acontecer direito, para depois opinar. Apenas um disco lançado é muito pouco material para tirar conclusões. Seria precipitado.
Mas o que essas bandas têm em comum para formar o festival mais mala que se tem história? A pretensão e os fãs, óbvio - além de Helio Flanders (Vanguart) e Marcelo Camelo (Hermanos) já terem ficado com Mallu Magalhães. Todas elas, sem exceção, são formadas por integrantes metidos a intelectuais, com opiniões subjetivas nas entrevistas e com instrumentistas e compositores que fazem de tudo para não parecerem pops demais. Aliás, pop para eles é palavrão. Quanto mais a música deles espantar as pessoas, melhor. Nota-se isso, principalmente, pelo tempo que o Los Hermanos ficou sem tocar a música "Anna Julia" em seus shows. Um absurdo, se tratando do maior sucesso da banda e de uma canção deliciosamente chicletão.
O Radiohead segue a mesma toada. Quando eles perceberam que tocar brit rock fazia a banda ser comparada ao Blur e ao Oasis, certamente Thom Yorke deve ter feito uma reunião com os demais integrantes e declarado algo assim: "Gente, somos mais feios e inteligentes que todas as outras bandas da Inglaterra. Vamos começar fazer música de difícil aceitação para sumirmos da mídia e tocarmos só para leitores de Albert Camus e para aquelas meninas com cor de manteiga Aviação". Deu quase certo.
O Kraftwerk é formado por Engenheiros Eletrônicos alemães. Dispensa comentários. E, voltando aos fãs, nada poderia ser pior numa reunião dessas. No caso do festival, é certeza que o público presente será estereotipado. Muita gente com cabelo estilo Lego e Zacharias, gente sem nenhum problema visual usando óculos de aro grosso, calça quadriculada, camisetas com mensagens e imagens "descoladas", All Star, Adidas, Puma, sapato scarpim, vestidos de bolinha, franjas, barba por fazer e muito cheiro de mofo no local. Ou seja, a nata dos maletas de São Paulo vai estar toda reunida, na maior celebração aos músicos músicos mais chatos da atualidade. É numa hora dessas, que se percebe que até a década de 80, com todo seu exagero farofa e new wave, era perita em fazer os fãs de música mais felizes.
Fernanda Young tem razão

No início de novembro, a escritora, roteirista, apresentadora e não sei mais o quê Fernanda Young concedeu uma entrevista especial à revista Veja. Não sou nenhum fã dela e nem mesmo conheço profundamente seu trabalho, com exceção da sua participação como roteirista no seriado Os Normais. Mas, admito, que passei pelo menos a respeitá-la depois de ler a entrevista. Entre os diversos temas que foram abordados, alguns me chamaram a atenção. O primeiro deles se refere a uma afirmação de Fernanda: "Não existe nada mais irritante do que gente metida a conhecer vinho e discutir safras de produção da bebida em qualquer tipo de reunião...". E ela continua. "Tenho forte resistência a qualquer tipo de bebida. Sou descendente de irlandeses... Meu único problema é exagerar na cerveja". Perfeito. Realmente não existe nada mais chato do que os enólogos de plantão. É só o cidadão subir uns degraus na escalada social para começar a frequentar vinícolas e comprar alguns Cabernets Sauvignon com um preço que dificilmente está abaixo dos R$ 50.
E o vinho dificilmente é bebido sozinho. Ou o rapaz chama uma garota para dividi-lo ou aproveita para abrir a garrafa em uma reunião informal. Em qualquer uma das situações, o novo enólogo, influenciado por algumas aulas de etiqueta, abre a garrafa, cheira a rolha, espera o paladar do vinho abrir, coloca a bebida em uma taça e depois dá um gole, mas não sem antes fazer um bochecho, quiçá um gargarejo. Depois, serve a todos e cria um monólogo para explicar que o vinho é da safra de 97. Só foram produzidas 40 garrafas, poxa! Vamos celebrar! Sinceramente, o gosto da bebida não difere muito do que é encontrado no Sangue de Boi ou no Chalisé, dois rótulos populares e que dificilmente excedem o preço de R$ 10 (mas que, ressalva seja feita, sempre garantem uma enxaqueca no dia seguinte). Para quê, então, uma pessoa se mete a conhecer vinho? Simples, para impressionar e parecer mais importante e elitista do que realmente é. A mesma coisa acontece com aquelas meninas vestidas com roupas de boneca e penteados dotados de franjas pretas e assimétricas que fingem entender o que o Radiohead quer passar com as músicas deles, enquanto a banda finge que faz música. Nesses casos, nada melhor que a boa e velha cerveja e a objetividade de um disco do Kiss. No caso da loira gelada, acredito não ser problema o consumidor ser exigente na hora de escolher a marca que vai beber, porque nunca vi nenhum bebedor de Guinnes com a frescura de inalar a torneira da choppeira ou o fã de Brahma ficar respirando a tampinha de metal da garrafa 600 ml. Muito menos explicar a história da bebida.
Outra observação bacana de Fernanda Young é a respeito das festas repletas de gente feia. Ela ainda é mais específica, e diz se entristecer quando vai a um lugar em que não tem mulher bonita para ela olhar. Perfeito outra vez. Mulher bonita é o mínimo que qualquer celebração deve ter. E nem digo isso com segundas intenções. É que essa exigência ajuda a alegrar o ambiente. São Paulo é uma cidade que sofre para cumprir esses requisitos. Nem sempre pelas pessoas serem realmente feias, mas por abusarem na ridicularidade ao se vestir, portando tênis verde limão e cabelos exagerados. Às vezes, tenho até a impressão de viver na Inglaterra da década de 80, quando vejo esses exemplares por aí.
Qual o Critério?
Não sou matemático e nem mesmo sei realizar perfeitamente a maioria das operações básicas dessa ciência exata, chata, porém necessária. Contudo não sou idiota o bastante para não reconhecer que existem abusos das mais variadas formas nos preços praticados por comerciantes de uma mesma cidade. Em um único produto, a diferença de valor chega a gritantes 200%, dependendo da região de São Paulo.
Não sou economista também, mas essa percepção citada acima eu tive há alguns meses, quando comecei a reparar como era muito mais barato pagar pela cerveja e derivados alcoólicos comercializados na parte pobre da cidade, onde moro. Na parte rica, onde trabalho, o liquído precioso não é para qualquer um. Para nível de comparação, vou analisar através da cerveja mais popular nos comerciais televisivos, a Brahma. Em qualquer bar do subúrbio da zona leste, dificilmente alguém pagará mais de R$ 2,50 em uma garrafa dessa marca em botecos e padarias. Se a compra for realizada em mercado, esse valor cairá significativamente. Num mesmo boteco na parte rica de São Paulo ou até mesmo no Centro, em que o consumidor está sempre passível de tomar uma facada (no sentido literal), a loira da marca em questão pode custar em torno de R$ 5. Claro que é perfeitamente aceitável ela custar mais caro do que na periferia, pois o comerciante é alvo de um aluguel maior e de outras taxas que eu não sei direito o que são, mas que devem encarecer e muito o produto final. Mas, pera lá: se um estabelecimento pequeno e pouco movimentado pode cobrar R$ 2,50 pela Brahma - contabilizando aí a margem de lucro - porque um outro bar, na mesma cidade e pagando praticamente o mesmo pela cerveja no atacado, chega a cobrar o dobro ou mais? Há um abuso nessa condição que muitos consumidores aceitam e pagam de bom grado, mas que eu não engulo.
Não escrevi esse texto para ser contra o capitalismo, mas é que, se a cerveja continuar custando tão caro assim em alguns lugares, em menos de um ano estaremos pagando R$ 10 por uma garrafa em um boteco. Com um salário de jornalista recém-formado girando em torno de R$ 1,5 mil, seria possível comprar apenas 150 garrafas do liquído precioso. Logo, não sobraria um troco para o amendoim ou para a dose de vodca. Vodca que, aliás, chega a custar R$ 40 a garrafa em bairros mais nobres quando a marca em questão é Smirnoff. Na periferia, o custo cai pela metade, nesse caso.
Eu temo - e muito - pela cesta básica alcoólica ficar insustentável daqui há alguns anos. Deveria haver algum tipo de lei padronizando o preço da bebida, como é com o cigarro. Só assim eu poderia tomar minha cerveja sossegado tanto na Cidade Tiradentes, quanto em Moema. Dependendo aí, claro, apenas do meu estado de espírito e não do quanto ainda tenho no bolso para ser gasto com álcool.
Alô? Vai Para a Puta Que Pariu
Eu não vejo graça em telefone. Acredito ser um objeto útil apenas quando precisamos trabalhar ou para avisar algo urgente. Do contrário, só serve para passar trote, ficar de conversa fiada com a namorada, com os amigos e os parentes. Fora que serve também para importunar quem odeia receber e fazer telefonemas despropositais, como eu. Teve uma época da minha vida que esse ódio pelo aparelho criado por Graham Bell cresceu. Era por volta de 2005 ou 2006. Nâo me lembro com exatidão, mas sei que estudava jornalismo na Universidade São Judas Tadeu. À época, ao menos uma vez por semana, eu recebia telefonemas do meu amigo Diego Tadeu por volta da meia-noite. Invariavelmente, a conversa era sem nexo e não tinha um porquê.
- Alô, Helder?
- Fala, Tadeu!
- Cara, escuta, o que vai ter amanhã na faculdade?
- Se eu não me engano, você assistiu às aulas. Assim como eu. Você deveria saber que não vai ter merda nenhuma de diferente.
- Não vai ter trabalho, prova, nem nada?
- Não, mano. Caralho!
- Tá, beleza. Ah, e vá tomar no cu.
E assim ele desligava. Mas não parava por aí. Logo em seguida, ele pegava o número de outro amigo de classe e fazia as mesmas perguntas com o mesmo cinismo. Mas não é só isso que atrapalha a vida. Quando se é repórter, é necessário fazer contato com os mais variados tipos de pessoas. Alguns são perfeitos imbecis, é verdade. Outros são carentes e, talvez, só tenham eu para conversar. O fato é que, às vezes, ao ligar para assessoria de imprensa, é comum ser tratado como um qualquer. Não é nada incomum você ouvir do outro lado da linha coisas como "Ah, é um filho da puta de um repórter de não sei da onde querendo entrevistar o José". Sem contar das vezes que você é confundido com um vendedor de anúncios e evitado ao máximo. Quanto aos carente, é pior ainda. Após entrar em contato com eles uma única vez para uma eventual entrevista, a pessoa já se sente íntima e te liga semanalmente, perguntando como está a vida e desejando marcar almoços. Eu sempre preferi almoçar sozinho. Quando muito, almoço com alguém engraçado, mas que não fale muito e nem cuspa arroz na minha cara. Esses chatos geralmente acumulam outros problemas, como falar de boca cheia ou querer te levar para conhecer a própria casa (se bem que aí já posso desconfiar que o cara queira comer meu rabo).
Quando o telefone toca mais de dez vezes, é outro sinal de que existe gente que não deve saber que é perfeitamente normal a pessoa estar ausente. Ou não querer atender apenas. Ora, quem nunca deixou o telefone tocando? Existem coisas mais importante do que atender telefone, como cagar e tomar cerveja. Os parentes ligam às vezes. Sempre me perguntam se eu já terminei a faculdade (sim, há dois anos) e como vai o trabalho. Sou sincero, digo que ganho uma merreca e que, se tivesse talento, já estaria rico em outra profissão. Eles dizem que isso vai melhorar logo e pedem para eu rezar e procurar Deus, porque Ele vai me ajudar. Talvez, penso. Mas respondo positivamente e me esforço ao máximo para desligar o telefone antes da bina acusar três minutos de conversa. Também tenho uns amigos que me ligam às vezes. Eles me perguntam coisas absurdas, tipo se a minha mãe continua trabalhando no Estado. Ela é funcionária pública. Só é demitida se matar alguém ou se roubar um banco. Algumas pessoas ficam horas com namoradas ao telefone, mas esse problema eu não tenho. Esse casais chegam ao cúmulo de ficar numa babaquice de testar os nervos para ver quem desliga primeiro o telefone. Ponha logo o fone no gancho, de preferência com força, para quebrar o aparelho ao meio.
Goleiro-Anão
Em uma determinada época da minha vida, quando tinha por volta de 10 anos, meu sonho era ser goleiro. A vontade funcionava até como uma certa obsessão. Eu me imaginava entrando em campo e jogando como aqueles guarda-metas xerifões que são tão comuns no futebol praticado nas últimas duas décadas. Meu pai, sensível à minha vontade, resolveu me incentivar. Alguns dias antes do meu aniversário de 10 anos, ele foi à uma loja de artigos esportivos e comprou o uniforme completo de goleiro: chuteiras, meiões, calção, camiseta e luva. Tudo no tamanho infantil, para caber direitinho em uma criança. Quando o velho chegou em casa com aquele embrulho, logo vesti o fardamento para mostrar a ele como eu me encaixava direitinho na posição. Saí correndo de chuteira pelo quintal de casa. Totalmente serelepe, no terceiro passo da minha corrida, escorreguei e meti a cabeça na quina de um degrau do corredor externo da casa. Claro que isso tava para acontecer. O piso era de ardósia e, quem já andou de chuteira em qualquer terreno que não seja, grama, terra ou areia, sabe que um ato imbecil como correr com os cravos do calçado no piso é a mesma coisa que andar descalço no chão molhado e com sabão. Já caí num desses também, enquanto um primo me filmava com uma câmera pessoal. Quase tive alguns derrames cerebrais quando criança.
Mas esse pequeno acidente não afastou a minha vontade de ser goleiro de futebol. Nas fotos da festa de aniversário desse ano em questão, estava vestido com o fardamento, bem como em umas imagens em que eu dava pontes no quintal da casa do meu avô, em Ponta Grossa. Fulvio, um vizinho meu que pegava no gol, me ensinou como cair sem me machucar e me encorajou a ser goleiro, mesmo tendo uma altura que não ajudava muito. Essa atitude me ajudou a, pelo menos, continuar a ser escolhido na hora de jogar bola com meus vizinhos. Como eu era gordo, lento e baixo, nada melhor que eu ficasse no gol, enquanto as crianças magras e ruins de bola se esbaldavam na linha. Quer dizer, se esbaldavam até certo ponto. Como eu era meio retardado, fechava o gol e jogava quase como um líbero. Essa era a forma que eu encontrava de suprir minha falta de altura. Também entrava com o cravo da chuteira na canela dos atacantes e levava quem quisesse me driblar no jogo de corpo. Quase um goleiro-zagueiro.
Passaram-se dois anos e a vontade de me manter nessa posição foi diminuindo. Eu percebi que, salvo raras exceções, o goleiro não come quase ninguém depois da fama e não tem vantagem nenhuma em campo. Fui fazer escolinha de futebol e aprendi a jogar o mínimo para atuar na linha. Também já era um pouco mais magro e isso facilitava uma evolução nas peladas. Como meus adversário eram crianças e adolescentes com problemas de alimentação (quase sempre baseada em leite em pó de escola públlica e carne moída), eu me destacava pela resistência física. Mas esse nem foi o maior motivo para eu deixar o gol. A verdade que essa escolha apareceu em minha vida unicamente por admiração ao grande goleiro Ronaldo, que defendeu o Corinthians por 17 anos, entre atuações nas categorias de base e profissional. Polêmico, roqueiro, encrenqueiro, talentoso e apaixonado pelo Corinthians, ele era tudo que eu queria ser quando crescer. Ele era líder, um ídolo do timão que foi chutado do clube como se não tivesse valor nenhum lá dentro. A minha pouca vontade de continuar na posição de arqueiro acabou com o adeus de Ronaldo ao time que começava a ser formado pelo canalha do Luxemburgo.
Podem Morrer em Paz
Dia desses, tive um sonho inusitado. Dormindo, passava em minha mente um filme em que Ringo Starr, o narigudinho mais sortudo do mundo, morria e deixava o posto de único Beatle vivo para Paul Mc'Cartney. Quando acordei, me senti um pouco triste com o fato. Afinal, sou fã dos rapazes de Liverpool. Porém, pensando bem e conversando com um amigo cheguei à conclusão de que, atualmente, a morte de qualquer rock star não teria a menor importância para a humanidade ou até mesmo para a música.
O que de melhor eles poderiam ter feito, já foi realizado há muitos e muitos anos. Há décadas que a maioria das grandes estrelas do rock não passam de simulacros do que já foram um dia. Ringo Starr é uma das maiores provas disso. Sua carreira solo é insignificante e nunca deslanchou. Macca, por sua vez, fez um punhado de canções pops bonitinhas, mas há muito tempo não acerta a mão em mais do que duas faixas por álbum. E olhe lá.
E os exemplos não param por aí. O Metallica não sabe o que é fazer um álbum decente do começo ao fim desde o fodaço S&M. Iron Maiden é um mais do mesmo sem fim. Led Zeppelin não existiu mais após a morte de John Bonham e só serve como registro histórico de si mesmo. Deep Purple bem que tenta lançar CDs inéditos a cada cinco anos, mas, convenhamos: apesar de todos os músicos fantásticos na formação da banda, nada que tem sido produzido por eles é relevante desde Perfect Strangers. Maior prova disso é o set list dos shows, repleto de canções que foram lançadas até a década de 80 e poquíssimos exemplos do que foi composto nas últimas duas décadas. O AC/DC sempre teve um som muito parecido em toda a discografia, mas nunca mais fez uma pérola, apesar de insistir nos três acordes defendidos por riffs cheios de sustância. Van Halen vai e vem e não mostra o motivo (além de conseguir mais grana para a família Van Halen, claro). Guns e seu Chinese Democracy já encheram o saco. Depois que as faixas vazaram na internet e ficou constatado que o disco não presta, ninguém se importa mais mesmo. A ressalva vai para o Rolling Stones, que, ao menos, continua realizando turnês clássicas e lançando discos, no mínimo, com metade do repertório digno de um medalhão do Rock (exemplo disso é o regular A Bigger Bang, de 2005).
Por essas e outras que a morte do Jimmy Page, Robert Plant, Macca, Ringo, Ian Gillan, Roger Glover, James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammet, Angus Young, Malcom Young, Axl Rose, Slash, Eddie Van Halen, David Lee Roth e tantos outros não faria a menor diferença nessa altura do campeonato. Principalmente se fossem todos juntos, numa tacada só, deixando de lembrança o dia em que eles foram gênios. A triste constatação é que eles não vão ser substiuídos tão cedo. Paciência.
Jovens Demais
A geração nascida na década de 80 tem muito a lamentar sobre grandes nomes das artes que se foram sem prévio aviso e precocemente (não vou aqui me opor ao chamado divino de deus na idade, diríamos, justa). Mesmo antes de nos darmos conta das perdas que alguns astros causariam, quando ainda éramos crianças e fazíamos nossas necessidades no pinico, Raul Seixas, Cazuza, Fred Mercury, Gonzaguinha e tantos outros nos deixaram. Um pouco mais crescidos, vimos Renato Russo, Cássia Eller, Kurt Cobain, Ayrton Senna, Denner e Laney Staley, principalmente, deixarem-nos sem sua própria arte. Arte que, de tão careta e sem sal nas duas últimas décadas, chega a ser frígida e impotente. Ontem, definitivamente, um dos últimos rebeldes nos deixou. Heath Ledger, ator australiano de 28 anos, foi encontrado morto no quarto do seu apartamento. A suspeita inicial é de que se trata de uma overdose acidental, pois ao lado do corpo haviam pílulas espalhadas.
A causa mortis é o menos relevante nesse caso. Considerado o novo James Dean do cinema mundial pelos críticos (por ser rebelde e, infelizmente agora, por também ter morrido jovem), o ator, ao lado de Johnny Depp, Elijah Wood, Sean Penn, Benício Del Toro, Gael Garcia Bernal e Javier Barden, integrava o time de ouro dos atores que ainda não ultrapassaram os 50 anos e não carimbaram, de uma vez por todas, seus nomes na história do cinema como Robert de Niro, Al Pacino e Marlon Brando, que também já está do outro lado. Mas, nesse caso, sem querer parecer indelicado, o fim veio na hora merecida.
A perda de Ledger é um fato em que o fã da sétima arte deve se apoiar e pensar no efeito que ele terá para o futuro da indústria cinematográfica, cada vez mais carente de atores com personalidade. Depois de ralar muito em filmes comerciais do seu país natal, Ledger foi para os E.U.A. tentar a sorte e conseguiu uma ótima visibilidade com o filme "10 Coisas Que Eu Odeio Em Você", uma comédia romântica juvenil, mas que, com o toque pessoal do ator, chega a ser um programa interessante. Após esse filme, o ator recusou diversos convites para estrelar filmes de gêneros similares.
Os produtores o chamavam de louco e a sua família o condenava, alegando que era preciso comer e pagar as contas, e que esse tipo de convite não se recusa. Eu o considero, além de um dos últimos dos chamados rebeldes, um romântico que, mesmo mal visto por suas atitudes anti-comerciais, só fez o que gostava e, apesar da carreira meteórica de pouco mais de uma dúzia de filmes na sua vida adulta, deixou uma obra que, se não é um primor clássico, não é tão pouco um vexame. O correto seria dizer que ele construiu uma carreira honesta consigo mesmo e com o público. "O Patriota", "Os Irmãos Grimm", "Coração de Cavaleiro", "Candy", "Ned Kelly" e "O Segredo de Brockeback Mountain", no qual foi indicado ao Oscar de melhor ator, se destacam entre os filmes mais importantes em que participou e que já foram lançados.
O mundo ainda poderá vê-lo no filme "Eu Não Estava Lá", em que interpreta o cantor Bob Dylan e com previsão de estréia para março, e como o Coringa, na nova saga do Batman, que deve ganhar as telonas em junho. Dizem as más línguas que o vilão que ele interpretou se destaca no filme e ofusca a importância do homem morcego. Além de afirmarem por aí ter sido a face mais macabra e sexy que o inimigo número um do Cavaleiro das Trevas já se atreveu a atingir no cinema, superando até Jack Nicholson. Também, pudera, para incorporar o personagem, Ledger o estudou por quatro meses, pesquisou o que poderia atraí-lo, como brincar com a AIDS. Tudo isso para colocar em cena o seu melhor. Seria capaz de, em um futuro próximo, o Coringa ganhar um filme próprio? Eu acredito que sim. Mas a aposta não pode mais ser feita. Foram tantos estudos e esforços que o ator teve complicações no sono e passou a tomar remédios para conseguir dormir mais de duas horas por dia.
Heath Ledger foi casado com a atriz Michelle Willians, deixa uma filha de dois anos e milhares de fãs e futuros admiradores órfãos de sua arte.
Vídeos, Nomes e Manias
Certas coisas nos relacionamentos são realmente ruins de entender. Veja só a (não tão) nova mania dos papais e mamães em registrar em vídeo o parto dos seus filhos. O médico manipula um bisturi profissionalmente enquanto um cinegrafista, muito bem pago, filma a ocasião. Tudo vira evento. Isso quando não é o pai, que, emocionado, invariavelmente, cai no choro, treme a câmera e as imagens e desmaia. Pior é quando, por exemplo, clínicas de ultrassom cobram no pacote de atendimento à paciente vídeos com imagens do bebê na barriga. Com toda sinceridade do mundo, eu, que ainda não sou pai, duvido que assistiria isso mais de uma vez. Veria no ineditismo da situação, emocionado, com o choro engasgado na garganta mas, depois, guardaria numa estante e lá ficaria até que a minha esposa reunisse as amigas e ficasse com os seguintes comentários: "Olha, ele tinha o pinto pequeno igual ao do pai. Não nega filho de quem é". Nisso, eu daria um gole na minha cerveja e abriria o jornal, mais para esconder minhas bochechas avermelhadas do que para me informar.
Antes de tudo isso, há uma disputa patriarcal e maternal sobre qual vai ser o nome do rebento. Pais e mães adoram inventar, principalmente com os meninos. Antigamente era muito comum que (e reparem nos prefixos e sufixos) Emerson, Wilson, Anderson, Cleberson, Valdison, Wellinghton, Washington, Wallace, Wisonton e outros estrangeirismos fossem chiques. Depois veio a época do Daniel, Bruno, Guilherme, Lucas, Gabriel, Vitor, Diego, Rodrigo e Felipe. Garanto que quem tem por volta dos seus 25 anos estudou e conviveu com uma boa quantidade de personagens com esses nomes.
Atualmente, tá na moda nomes compostos ou sem um pingo de graça. João Henrique, João Pedro, Pedro Henrique, João Vinícius, Pedro Paulo, Paulo Henrique, Carlos Alberto, Marco Aurélio, Juvenal Charles, Marcos Thadeu, Diego Tadeu, Caio, Caíque, Cauã, Cauê... Na verdade, a junção de nomes é uma moda que voltou à tona, depois de muito tempo esquecida. Tipo o RPM e o Paulo Ricardo (sic). Só espero que, quando tiver próximo de ter meu primeiro filho, nenhuma dessas manias entre em cena. Uma criança ter que explicar a vida inteira como se escreve o nome ou ter um monte de amiguinhos com a mesmíssima denominação não deve ser fácil. Helder Jeverton sabe disso.
Podridão Sacrossanta
Uma noite desgraçada. Cidade alagada e cercada por todos os lados de merda, garrafas pet, sofás e pessoas ilhadas ao se segurar na velha cabine da Telesp, que não agüenta muito e cai na cabeça do pobre coitado. Chegou em casa atrasado por causa disso, o Nicanor. Chegou fedendo a esgoto, mas chegou. Já tinha sentido cheiros piores e passado por situações mais humilhantes na vida, mas isso era antes de sair de casa para ir trabalhar. Barba feita, café tomado e um soco na cara dói menos. Suado e depois de tomar esporro do chefe, qualquer tapa com luva de pelica se transforma quase como em um espancamento.
Odete viu o seu estado. Deplorável. Aquela calça boa que tinha no armário, da M.Officer, ficou imprestável pela sujeira da água. Cólera? Certamente ele deve ter contraído, com a bonificação da leptospirose. Sua esposa, condolente, pegou uma toalha e o secou, como quem abriga uma criança desamparada. Descalçou suas botas, tirou sua calça e sua camisa. Ligou o chuveiro e lhe deu um banho. Com carinho, e Nicanor nem falou nada nesse meio tempo. Só queria jantar e se deitar. Esquecer de São Paulo e o problema eterno das enchentes. Foi o que fez. Odete veio logo em seguida. Apagou as luzes, beijou a boca do marido, tirou sua roupa de novo. Dessa vez com outra intenção. Transaram, dormiram. No outro dia, pela manhã, transaram mais uma vez. Com um calor insuportável, o quarto estava abafado. E o cheiro de suor, misturado aos odores íntimos, se misturava ao ar do quarto e os lembrava de que algumas vezes a podridão é sacrossanta.
Helder Maldonado
Posição de Morte
Subiu a escada e sentiu faltar o ar. Ela sempre tinha esses sintomas quando fazia exercícios físicos, por menor que fossem. Levar o cachorro para passear, dar uma volta no quarteirão. Quase tudo a cansava, menos o sexo. Pelo menos, esses sintomas não apareciam nas relações que tinha com seu namorado.
As transas eram quentes, freqüentes e quase sempre repetidas de duas a três vezes numa mesma noite. Não havia parada pra nada. Mas Ruth descobriu um problema nos últimos meses. Um médico lhe disse que, infelizmente, ela sofria de falta de oxigenação no cérebro, e que teria que se tratar. Para não assustar a família e nem seu namorado, Ruth não avisou ninguém. Pensou que poderia se cuidar sozinha e, quando se recuperasse, avisaria a todos do tratamento pelo qual passou. Sem alarde, sem sustos. Tudo se resolveria e, quem sabe, ela até poderia levar o Xandão, seu Capa Preta cego, para passear novamente.
Infelizmente, os dias que se passaram após a descoberta acarretaram uma sensação de piora no seu estado. É como se fosse aquele câncer que só aumenta e é fatal após o diagnóstico médico. Ou aquela crise aérea que sempre existiu, mas só tomas as páginas de jornal depois de mais de 300 pessoas morrerem. Sintomas mundanos, brasileiros talvez.
Agora, até na hora do sexo faltava o ar. E não era por suspirar pelo seu amado. Era crônico, era o pulmão apertado e com pouco ar. E Ruth não demonstrava isso, para não alarmar seu tão querido namorado que, de súbito, percebeu o mal que a acometia. Interrompeu o coito na metade, mas era tarde. Ela havia morrido no meio do ato, ali, de quatro, e ainda quente e úmida. Renato não sabia como agir. Se continuava até vir dentro dela ou se a socorria. Enquanto isso, Ruth se mantinha de quatro, quente e úmida, mas morta. Renato, pelo susto, acabou por gozar, se vestir e chamar uma ambulância. Vestiu Ruth e disse que ela havia morrido ao adormecer. O Instituto Médico Legal constatou que ela havia morrido durante ato sexual e avisou a polícia sobre o caso. Renato responde por homicídio culposo.
Finais
Programou o fim. Sem salientar os motivos verdadeiros. Pensou que fosse fácil. Ela esperou e enganou por um bom tempo seu namorado, até que se decidisse sobre o fim da relação. Há algum tempo eles já não eram suficientemente bons. Ele dava toda a atenção. Ela, era sempre dispersa. O sexo não era surpreendente, mesmo porque ela mal tinha vontade de fazê-lo e, quando o fazia, parecia forçado. Um casamento de 15, 20 anos em apenas dois anos de namoro. Pouco mais de 700 dias juntos. Juras falsas de amor e muitas facada pelas costas.
Enquanto o Brasil assistia incrédulo a muitas situações adversas nos aeroportos, a vida dele era uma cena que nunca imaginou. Ela foi embora. Disse que não o amava mais, que a vida deles junto já não a entusiasmava. Ele concordava, mas sentia amor por ela, e não queria deixá-la partir. Era uma metade, uma amiga, alguém que o completava. Mesmo assim, a sua namorada teve de ir. Foi uma escolha irredutível.
O fim foi doído, foi o apagar das luzes no fim de um show.
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Pegou suas roupas, pouco a pouco, e se foi. O casamento era dos piores, há anos. Brigas, mentiras, gritos, ameaças. A situação financeira já não era a mesma, o amor já havia sumido. O que levou a essa situação? Ninguém sabe, mas, depois de um tempo, ela foi superada.
Mesmo assim, ele pegou as roupas e o que mais lhe pertencia. Não quis mostrar para o filho, já com 21 anos, que saía de casa para sempre e lhe deixava uma mãe como prêmio. Foi indo. A cada dia levou tudo dele para a casa da nova mulher. Passado um tempo, tentou integrar o seu filho, último a saber de tudo, na nova família. Já era tarde. Algo fedia.
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Ele sempre dizia que iria se matar. Mesmo sendo pouco levado a sério, ele insistia. Uma bala na cabeça ou uma overdose de remédios. Tanto faz, o fim justificaria os meios para ele.
Um carro bateu no seu. Uma ameaça foi feita e, depois disso, algo desmoronou. No mesmo dia, levado pelo desespero, encontrou munição e coragem para que uma bala entrasse na sua cabeça. Recarregou o 38, pediu a deus proteção. Deu um adeus simbólico aos amigos e apertou o gatilho. Foi o fim de um jovem, de um amigo, de alguém que há muito tempo não falava com Romeu, que até hoje se arrepende ou se sente traído pelos últimos dias de pessoas que não voltarão.
Fim de Ano
Chega o fim de mais um ano e, com ele, as festas. Natal e Ano Novo. Quando esta época aparece no calendário, muitas frases prontas e atitudes pré-concebidas surgem. Alguns anarco - punks oitentistas acham que o papai Noel é um velho batuta, que rejeita os miseráveis e cospe nos pobres. Eles querem mata-lo. Aquele porco capitalista. É a velha história de dizer que a data, adicionada ao Reveillon, não passa de ponto estratégico para os comerciantes escoarem os produtos do estoque a preços camaradas nos consumidores ávidos a gastar, por conta do 13º salário. Uma corda no pescoço, dada todo ano pelo patrão.
Essa mania não é a única a surgir do subconsciente popular. Tem sempre aquelas velhas pessoas que cultivam o estranho hábito de montar um presépio com o esquisito papel pedra. Eu nunca vi isso à venda em lugar nenhum. Mas ele está sempre lá. É sempre a vedete da réplica do cenário aonde supostamente nasceu o menino Jesus. Para enfeitar mais a maquete, os criativos pegam pedaços de gravetos, árvores, madiopan e qualquer outro produto vegetal ou orgânico que dê um quê de realidade. Até pêlo de animal. Juro.
É nessa época também que as dondocas vão ao shopping atrás das novidades plantadas. Gastam uma fortuna no que não precisam, presenteiam quem nem sequer merecia ganhar nada e compram comida que daria para toda uma cidade pequena ficar escondida num bunker nazista na Segunda Guerra Mundial. É peru, nozes, tender, frutas cristalizadas, panetone, bacalhau, rabanada, queijadinha, feijoada, churrasco, tabule, foie grois, lentilha e outras especiarias vindo das mais remotas partes do globo. Isso tudo faz alavancar a desnecessária pesquisa de mídia que estuda se o período das festas do ano vigente foi igual, pior ou melhor do que o anterior. No fim, não tem tanto resultado esse tipo de pesquisa, já que ninguém tem tempo de acompanhar os jornais nessa época do ano. E as redações não se cansam de fazer matérias com comparações de preços, de poder aquisitivo e de outras mazelas que todos já cansaram de saber. E de não entender.
A rua 25 de março sempre ganha uma atenção especial. Até parece que os paulistanos não a conhecem. Autopromoção indevida. Porque não sugerem o centro comercial de São Miguel ou do Campo Limpo Paulista?
Mesmo assim, lá estão todos os paulistanos felizes e esperando a noite de natal. Toda a família reunida. Aquele tio chato da porra que só repara em como você ta esquisito com esse cabelo ou aquela tia que envelheceu tanto que alguns ousam a perguntar se ela é irmã da avó. Tem também aquele primo que todos pensavam que jamais teria respeito por ninguém. Mas não, ele se casou e virou evangélico. Entre um gole e outro de refrigerante, o primo aproveita para tentar fazer com que seus parentes sigam o mesmo rumo. Ninguém dá muita atenção. Sidra também é álcool.
No ano novo a situação piora, mas é nas estradas. Quem resolver ficar na cidade, vai se dar bem, pois nada vai atrapalhar. Nada. O trânsito fica com uma fluidez incrível. Os bares não lotam. As pessoas têm calma. Existem vagas para estacionar. Já quem viaja, enfrenta uma média de velocidade ridícula até o local que escolheu. Se for pelo ar, a situação não é muito melhor. Quem acompanha a tragédia dos aeroportos, sabe.
Ao chegar na praia – loca preferido dos turistas- no dia da virada, é fácil de encontrar aquele filho de iemanjá que joga o barquinho de plástico que ele comprou na casa de umbanda, cheio de velas, em alto mar. Alguns têm hábitos mais estranhos, como jogar cueca velha na água, trair a mulher, comer romã, bater o carro, ser preso, comer panetone com hóstia. Tudo questão de crença. Quem estiver em casa, vai ter que agüentar algum especial de fim de ano bem babaca e com uma temática cafona. O Faustão não faz mais o Reveillon dele. E isso era uma das melhores coisas na TV. Oh, se era. Se existe saída para não estar no meio dessa situação, só se você morar em algum ponto sensato desse planeta. Não, eu não consigo fugir disso.
É
Parte 1
Tá descendo? Tá descendo? Brada uma voz desesperada. Então, para segurar o elevador, apertei o botão "Porta Aberta". Tá descendo? Sim, tá descendo, respondo eu. Ah, queria subir, diz a senhora de meia-idade que aguardava o elevador, com a maior simplicidade e calma na voz dessa vez. Pra que servem as setas que ficam na parte de cima dos elevadores? É.
Parte 2
E aí, cara. Opa. Vi que você gosta de música boa. É, alguma coisa. Legal, o que você curte? Então, curto... Uma voz chama Nélio do fim do corredor. Como era seu superior e ele, o estagiário, atendeu à voz no ato. Outro dia nós conversamos sobre música, cara. Beleza, então.
Nélio foi demitido depois disso. Nunca cheguei a ter uma conversa sobre música com o rapaz. Nem ele comigo. É.
Silêncio
Ato 1: Sentado em seu posto de trabalho, Ademar, o estagiário mais estressado de que se tem notícia no Vale do Paraíba, curte mais uma manhã de olhos pesados por falta de dormir, cabeça inchada de ouvir rádios ruins por osmose e de ter uma vida regada a álcool. Quieto, ele passa seus primeiros minutos da manhã triste, cansado e calado. É só o que ele quer no dia. Sua chefe chega, cheia de notícias novas sobre a empresa, com vontade pra trabalhar e disposta. Claro, a noite anterior dela, pensa ele, acabou às 22hs, no máximo, depois de um jantar completo. Bom dia. A cabeça dele clama em responder que Bom dia é o meu caralho! Não responde. No resto do dia, ela segue a perguntar sobre as milongas da seção. E ele só responde, no íntimo do seu peito, Caralho, cala a porra da boca, puta!
Ato 2: Waldemar, trabalhador de tornearia mecânica na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, chega em casa estafado de tanto cavaco de peça que voou em seu peito, rosto, perna e tórax. Cansado também do ferro de solda que feriu seus dedos. Cansado de comer a quentinha da porca da Dona Valquíria.
Para retornar à sua casa, ele ainda foi de bicicleta, cortando ônibus e dividindo a calçada com os pedestres. Abre a porta, e uma avalanche de gritos, vindos da boca de sua mãe, atingem seus tímpanos que, se medidos, chegariam à cerca de 200 decibéis. Nível insalubre, inumano, terrível, doído. Os motivos para tal berro, são irrelevantes. A resposta de Waldemar, não. Caralho, cala a porra da boca, puta!
Ato 3: Moto estourando velas do escapamento às 23hs de uma quinta-feira. Último dia antes do final de semana que viria. E que prometia. Marinho, famoso morador da Cidade Tiradentes, bairro da periferia de São Paulo, odiava qualquer atitude que caracterizasse maloqueiragem. Trabalhava, estudava, se vestia de forma impecável, da cabeça aos pés. O resto do dinheiro que lhe sobrava, após pagar a mensalidade da faculdade de Engenharia, dava para sua mãe e saía para tomar cerveja com alguns amigos.
Moto estourando velas do escapamento às 23hs de sexta-feira. Marinho acabara de chegar do bar em que conheceu Laurinha, há dois anos. Há dois anos também tentava ganhar seu coração. Conseguiu há três meses. Sábado, ela iria passar o dia na casa dele e dormir por lá. Conheceu dona Isaurinha, comeu de sua Broa de Centeio e foi ao quarto de Marinho se entregar, pela primeira vez, para o seu rapaz. Primeira vez. Em casa. Dinheiro faltava para motel. Em meio ao ato, moto estourando velas de escapamentos sábado, às 23hs. O rapaz de boa índole não agüentou. Atrapalhado com o barulho, brochou. Foi ao quarto do seu falecido pai, pegou a arma que escondia num baú, para uma possível proteção, chamou Gerson, amigo de infância que insistia em fazer barulho na sua rua, com a motocicleta, e disse: Vira aqui, Gerson! Opa. Um tiro. Apenas um. E o filho – da - puta, junto com a sua moto, calaram-se para sempre.
O Chato Incidental
Toca o despertador. Caralho, merda, é hora de acordar. Inevitável, mas 6:30 chegou. Tomei um banho, escovei os dentes e penteei o cabelo, se muito. Coloquei a roupa mais acessível e fui para o ponto de ônibus. É isso que temo. O ponto de ônibus e os transportes em geral são lugares aonde o encontro com pessoas que não vemos há muito tempo, mas que moram, muitas vezes, tão perto, acontece. E o clichê desses encontros grotescos irrita.
O ônibus não vem. Enquanto ele demora e se arrastas para me levar até o trabalho, sempre chega aquele velho conhecido cheio de perguntas e afirmações sem importância para me abordar. E aí, sumido. Sumido nada, trabalhando... Ah é, trabalhando aonde? Pausa. É importante frisar que eu encontrei esse mesmo cara há, no máximo, 20 dias. Nesse encontro ele me fez a mesma pergunta. Se ele se importa tanto em saber, porque não faz o mínimo de esforço para guardar o que foi respondido e, quando me encontrar novamente, poder puxar assuntos relacionados à teoria evolutiva de Charles Darwin ou sobre receitas de Empadas? Continuando: então, to trabalhando com assessoria de imprensa, lá no centro. Legal, eu to trabalhando de Office boy lá num escritório de advocacia, na Berrini. Detalhe: eu não me importei em perguntar aonde ele trabalha. A Informação foi dada de livre e espontânea vontade.
Nessas horas, a vontade é de despistar o camarada e pegar outra condução, mesmo que o itinerário seja bem diferente do meu e eu acabe sendo levado para o Jaçanã, ou qualquer bairro que o valha. A condução, com destino ao metrô, aparece no horizonte da avenida. Mesmo com a certeza de que terei um companheiro indesejado na viagem, acabo embarcando. Quando subo os degraus do ônibus, passo a catraca e já miro uma poltrona com um lugar ocupado. Assim, não terei que dividir o mesmo acento com o chato incidental. Aliás, um bom título para esse tipo de pessoa. Mas, insistente que é, ele se senta atrás de mim e continua o assunto maçante. E aí, namorando? To. Ah é, há quanto tempo? AH, uns seis meses já. Nossa, nem sabia. Pois é. Por educação, faço uma réplica da pergunta, que vem com uma resposta com gancho para outros assuntos irrelevantes. Ah, to nada. Continuo saindo. Pego uma aqui, outra ali. Você sabe como é? Não, eu não sei. E não acredito, também, que esse cara, tão humilhado em nossa infância como um fracassado com as mulheres, hoje tenha êxito com o sexo oposto.
E assim vai, até o desembarque. É nessa hora que o desespero vem à cabeça. Ainda tenho que embarcar no metrô e sei que o chato incidental me seguirá na viagem contando suas fanfarronices, por isso mesmo tento bolar uma escapatória. Vai pra que estação? Então, cara, não sei. Acho que vou dar uma passada na banca de jornal, ver umas revistas. Ah, eu vou com você. Saí meio adiantado de casa hoje. Quando acontece isso, a única vontade que tenho é de enfiar minha cabeça num buraco e esperar a pessoa ir embora. É muito azar para tão pouco tempo acordado. Entro na banca, compro, forçosamente, uma revista e vou a caminho do metrô com o pobre coitado carente de atenção.
No metrô, outras perguntas de cunho familiar, recordativo, futebolístico e automobilístico. E a sua mãe? Ta bem. Cozinha bem, sua mãe. Pois é, continua. É. Então, você lembra aquele dia em que o Marçal quebrou o pé? Quem? O Marçal, primo do Raí. Ah, lembro. Deu dó, né? Ficou com o osso pra fora (fratura exposta). Pode crer. E o Corinthians, hein? Ta indo. Foda esses jogadores galácticos que não fazem nada. Ô. Falando em esporte, e o Rubinho. Não ganha uma, né? Não, né. Nesse momento, depois de ter saturado a minha saúde matinal, o metrô anuncia, estação Anhagabaú. Chegou a hora da despedida. Mas o chato incidental não se dá por vencido. Cara, anota meu telefone aí, vamos sair qualquer dia, chamar o Yuri, Alemão, Macuco, Cavalo e o Jeberson. Vamos. Marca aí o meu. Ta. Me passa o seu. Opa. Me liga,hein. Pode deixar.
Segui o meu caminho, com um pensamento: tenho que mudar meu horário, para evitar esses encontros.
Restaurante Vegetariano
No horário do almoço de um dia qualquer resolvi experimentar a comida de um restaurante vegetariano. Sempre via a placa, que indicava que lá a comida era natural e saborosa. Resolvi subir aqueles dois lances de escadas e ir até o local, fazer uma experiência.
O ambiente, bem claro e com janelas para o Largo do Café, era limpo e tinha alguns quadros na parede, com indicações de que ele já havia ganhado, através de revistas e jornais, o título de melhor restaurante de São Paulo no quesito alimentação natural. Quando li uma dessa notas, percebi que existia uma ressalva quanto à temperatura da comida, que às vezes era encontrada fria no balcão de self - service.
Fui fazer meu prato. Mas, óbvio para quem come carne, assim como eu, que algo estranho acontecia naquele restaurante. Um ar sombrio, com pessoas de semblante triste sentada à mesa. A impressão que tive é que a maioria das pessoas que lá estavam não era vegetariana, e sim um bando de neuróticos preocupados excessivamente com a saúde ou com a circunferência abdominal. Os insultos são porque é possível se alimentar saudavelmente em restaurantes que servem carne de porco bem gordurosa e, ao mesmo tempo, um filé de frango grelhado. Cabe a você escolher o que vai acompanhar seus legumes cozidos ou sua bata frita com muito sal.
Prato feito, procuro encontrar aonde arranjaria alguma coisa para beber. Perguntei no balcão de pagamento aonde estavam os refrigerantes, sucos, cervejas e cachaças. O possível dono me disse que havia um bebedouro de sucos, parecidos com aqueles de água que temos em casa. Os sabores? Manga e Limão com Capim Santo. Se o capim é santo, faço questão de não deixar mais meu cachorro cagar nos pequenos ramalhetes de erva daninha que nascem nos vãos da calçada. O caso é outro, para falar a verdade. Além de vir direto de uma máquina tão arcaica e não adequada ao armazenamento de bebidas compostas como esse bebedouro, o suco era ruim e artificial. Opa, o restaurante não se oferecia natural? É, até nos redutos mais sacros há alguns pecados.
Enquanto deglutia pedaços asquerosos de carne de soja, uma massa sem graça com um molho sem sal e um bolinho de não sei o que, mas que me lembrava bastante o gosto das bases enferrujadas dos balanços que existem nos parques infantis, observava atentamente os outros clientes. Algumas mulheres semi gostosas, que, certamente, se achavam gordas. Homens, no geral, eram velhos que devem adaptar a refeição natural nessa altura da vida por orientação médica ou por falta de virilidade, se é que isso faz algum sentido.
Saí daquele restaurante com um sentimento de tristeza profunda. A impressão que me dava, enquanto caminhava pelas ruas do centro após me retirar de um local que, prometo, só voltarei por motivos maiores, era de que passara um final de semana trancado em meu quarto ouvindo tudo de mais triste e melancólico que já foi produzido musicalmente, como joy division, the cure e los hermanos. Ao meu lado, para ajudar a me afogar mais na fossa, poderia ter uma garrafa de uísque, um prozac e um pacote de ebicen de camarão. Com certeza, 48 horas com todos esses aparatos me faria ter o sentimento que tive ao sair do restaurante vegetariano que marcou em minha vida.
Hora de Dormir
Chegou a hora de dormir. Depois de trabalhar o dia inteiro, nos repousamos sobre a cama. Exceto nos dias em que estamos em viagens com amigos dementes, em motéis ou em embriagados demais a ponto de dormir em qualquer lugar e de qualquer jeito, nos deitamos em nossas camas, com os nossos lençóis, edredons, cobertores, fronhas e, em alguns casos mais raros, pijamas. E é em todos esses aparatos que o problema reside.
O foco é: Porque motivo que toda roupa de cama tem que ter desenhos e estampas ridículas? Muitos já devem ter reparado que não tem lógica e nem cabimento as formas geométricas e cores que compõem um cobertor ou uma colcha. Ta certo, não é pra ter explicação, aliás, só serve para te esquentar mesmo. Mas, convenhamos, será que um edredom não pode ser apenas de uma cor, como Rosa, Preto, Branco ou Azul? Venderia menos? Não sei. O fato é que eu, antes de dormir, olho indignado para a cama, meneio minha cabeça negativamente, e entro embaixo dos panos. Afinal, o que se há de fazer...
E quanto aos pijamas (e a quem os usa também, diga-se de passagem)? As cores em tons pastéis e as estampas de bichinhos fofinhos, para as mulheres, são broxantes. E os pijamas masculinos, com aqueles cortes com gola em V e botões? Dói minha cabeça em pensar que alguém possa escolher, como estilo de vida, dormir com um pijama que dá mais trabalho para vestir do que a roupa que é usada para trabalhar. O melhor mesmo seria, para evitar controvérsias (nas cores e estampas idem), que os cobertores fossem de uma cor uniforme e as pessoas dormissem com roupas velhas ou nuas.
Estação Brás
O primeiro bairro do centro em direção a região Leste de São Paulo, o Brás, grande pólo comercial da cidade, e reduto de descendentes de italianos, guarda em sua memória uma história rica em detalhes. No início do século passado, esse bairro circundado pelas várzeas do rio Tamanduateí e Tietê era uma região quase que exclusiva de indústrias, que se formaram a partir de uma capela erguida pelo “colonizador do bairro”, José Brás, aonde hoje se encontra o Largo da Concórdia.
Mas não é para contar a história do bairro, especificamente, que esse texto se preza, e, sim, para falar sobre a estação Brás do Metrô, que ainda tem integrado nas suas dependências uma estação de trem, um terminal de ônibus e ponto de táxis.
Inaugurada na década de 70, a malha ferroviária do metrô teve como primeira linha a norte - sul (azul) e só depois que surgiu a linha onde está situada a estação Brás, leste – oeste (vermelha).
Para parte do sentido bairro centro a partir do leste nessa linha, a estação é um terror, todos os dias pela manhã. Por causa de um erro histórico, grande parte da população paulista mora na zona leste. Quando o metrô chega na estação Tatuapé, três estações antes do Brás, os vagões já estão a ponto de explodir, de tantas pessoas que lá estão. E o desespero começa, então. Um frio na espinha, apesar do calor, sobe até a nuca dos passageiros, que começam a fazer contagem regressiva e fecham os olhos, na espera de sofrer quando o Brás chegar. A espera é o sofrimento diário e serve como penitência para esses católicos não praticantes que dependem do transporte público.
Não demora muito e o Brás chega. Segundos antes, os passageiros começam a suspirar, a ter frio na barriga, a pensar como vão se esconder e fugir da massa de corpos humanos que entram em disparada, e alguns rezam o terço, contando as bolinhas de madeira que o caracterizam.
O metroviário anuncia no alto falante, após o trivial sinal sonoro do metrô paulistano “Estação Brás”. Pronto. Em questão de segundos, os passageiros que já estavam dentro do metrô com certo aperto, calor e calafrio, começam a pensar em que posição ficar na hora que a multidão em disparada adentrar as portas dos vagões. A porta se abre. Gritaria e impropérios. Puta que pariu, tem criança aqui. Filho de uma puta tem pessoa de idade no vagão. Tem respeito, não? Ohhh, vai devagar aí, bando de cavalo! Nossa, que falta de educação. Chega. Não entra mais ninguém. Já ta parecendo uma lata de sardinha aqui. Parece que só quem entra no Brás tem pressa! Minha senhora, me desculpe, mas se não quer ser empurrada ou tocada, vá de táxi. E por aí vão os insultos, descendo a ladeira da baixaria.
A forma como os passageiros da estação Brás são tratados é, de certa forma, até que comovente. Ao que parece, à primeira vista, é que eles são selvagens, que apenas pretendem caçar sua vítima(metrô) e descansar (viajar no metrô). O problema é mais complicado, mas não me aprofundarei nisso. O importante é que todo esse martírio dura apenas até a estação Sé, 4 minutos depois do embarque de passageiros do Brás. Isso se o metroviário não frear o trem nem uma vez ou parar na curva com descaída que existe antes de chegar na estação Sé.
Metrópole.
São Paulo e o Mal Humorado Feliz
A visão não é das melhores. Desconexas paredes de concreto entre vãos e um chão de mosaico português. Não dá para se sentir à vontade, nem mesmo com a mais agradável das companhias. Eles bem que queriam fugir, mas tinham que ficar. Às vezes, até queriam ficar mesmo, do fundo do coração. Não há outra opção. Tá ruim, mas ta bom, é o que diria os mais conformistas, raça surgida com a constante mudança de políticos que, na verdade, só têm de diferente o rosto ou a esposa (às vezes, nem isso. Só deus sabe!).
São calçados desnivelados, mendigos fedendo à podridão que nos passa na cabeça quando olhamos de soslaio os travestis e prostitutas que fazem ponto ali, bem na sua cara, bem na frente das crianças, à luz do dia, descaradamente, no Vale do Anhagabaú. Claro, todos precisam sobreviver e em São Paulo não seria diferente.
Ta calor por essas bandas nos últimos dias. Muito mesmo. Talvez até mais do que em algumas cidades desfavorecidas do nordeste ou nos paraísos de água salgada do Caribe.
São Paulo é assim: você a ama, quando passa em frente ao Museu do Ipiranga; você a odeia, quando lembra que poucos metros a frente um trânsito infernal te espera. E para piorar, nada de agradável às vistas circundam as avenidas que nos leva para casa. Nas Marginais, ficamos com a visão de rios poluídos e de outdoors que, não sei se para todos, mas que para mim não serve para comprar ou adquirir o hábito de consumir nenhuma produto ou serviço. Não me lembro de um dia ter chegado a ler um desses anúncios e pensar "Porra, é disso que eu preciso. Tenho que ir às Casas Pernambucanas e comprar um edredon" ou mesmo "Claro, tava mesmo precisando de um celular GSM novo. Esse que eu comprei há um mês está passado". Não adquiri, graças a deus ou qualquer entidade a sua escolha, o hábito do consumismo por impulso. Sou consumista, sim, mas de coisas que preciso. Nunca penso duas vezes em adquirir algo que entendo ser de minha necessidade. Ambíguo, mas entendível. Assim também são os paulistanos.
Voltando a São Paulo, tento relaxar em saber que temos, ao menos, lugares em que podemos nos divertir. Esses lugares não faltam na região central, da zona oeste, sul, leste e, um pouco menos, norte. Claro que, antes de se divertir, vão te fechar na Avenida Consolação, te mostrar o dedo do meio e, se der azar, o animal que fez toda a balbúrdia vai descer do carro e te ameaçar, com arma em punho, pose de machão e tudo mais. Isso sem o cara passar do 1,70 e ter mais que 50 kg. É mole?
Anda um pouco e chora. De emoção, de Raiva. São Paulo é tão diversificada que não poderia deixar de causar sentimentos de tantas formas diversificadas entre os cinco milhões de moradores dessa capital.
Um dia ainda vou ficar feliz quando os chafarizes que ornamentam certas praças e parques estiverem borrifando água por causa do vento e o líquido molhar, levemente, minha cara, cheia de poluição, poeira e suor.
Parece que te odeio, minha menina, mas não é bem assim. Se te desse liberdade demais, pareceria falta de afeto.
Para que se importar tanto em deixar a casa arrumada se seu coração está sempre uma bagunça?
Fittipaldi
Calor na cidade. 30 graus em São Paulo. Num Sábado assim, o mais comum é que os donos dos bares, ilegalmente, coloquem as mesas e as cadeiras nas calçadas e sirva a única bebida capaz de refrescar esse clima: a cerveja!
David, na casa dos seus 25 anos, tinha cabelos escuros e finos, espalhados pela sua cabeça que já apresentava pequenas entradas e, claro, uma barriguinha marota e pouco saliente, típica dos alcoólatras que encontram uns trinta minutos diários para tirar uma de atleta. Nos altos dos seus 1,75m, ele calça um par de havaianas pretas, uma bermuda caqui e uma camiseta regata da Hering, já um pouco surrada de alguns verões passados. Nada de mais. É seu uniforme para ir ao bar aos sábados.
Ele, juntamente com mais dois amigos, o Cris e o Rafa, sentam-se à mesa e pedem duas cervejas, enquanto suam por todas as partes do corpo na espera do liquido chegar às suas bocas. Na mesa a frente, sentadas, estão quatro mulheres não aparentando muito mais do que 30 anos cada. Talvez até menos. Duas loiras normais, daquelas que tingem o cabelo e que ficariam mais bonitas com a cor natural dos seus fios, uma morena parecida com uma índia, com seus cabelos lisos e seus olhos puxados e uma loira que, apesar de não ser um mulherão, era, sim, uma mulher muito bonita, mas, aparentemente, muita timidez e tristeza saía de seus olhos azuis.
David, atento a todos os detalhes, olha com cuidado para os pés dessa loirinha tímida, e percebe que ela usa chinelos e que suas unhas eram muito bem cuidadas, apesar de ele mal saber a diferença entre uma base e um esmalte. Ela, percebendo o tal interesse, cora por dentro e por fora, mas tenta mostrar naturalidade, conversando com as amigas e bebendo a sua cerveja como se aquilo fosse mais prazeroso do que sexo.
Com seu vestido preto, nem tão curto e nem tão cumprido, ela insinua uma cruzada de pernas – desnecessária, diga-se de passagem – mas que não poderia deixar de acontecer; era a única forma de se insinuar depois do olhar. David pede uma cachaça de alambique, só para ver se toma coragem para chegar nela. Não que ele precisasse, mas o contexto pedia tal coisa, pedia um aditivo, pedia que ele não fosse exatamente como é cinco dias por semana no edifício em que trabalha. Aliás, a loirinha, que mais a frente david saberá que se chama Sarah, também compartilhava de tal opinião, mas nunca a colocava em prática. Na hora H, nem sequer uma garrafa de conhaque ajudava. Ficava então esperando que algum vento mais forte batesse na tarde de Sábado e arrepiasse seus pêlos loiros da perna, na finalidade de mostrar uma sexualidade alternativa para com quem ela flertasse. Mesmo quando vestia calça, esperava por esse vento, mesmo que fosse no braço. Ela sempre se arrepiava. Sempre tinha calafrios e seus pêlos arrepiavam, principalmente quando estava interessada em alguém.
E ficaram, por uma boa parte da tarde, flertando dessa forma. Ele, em muitas vezes, falava alto, de assunto variados, para tentar impressionar. Coisas de homens. Ela, quieta e com sua eterna tristeza no olhar, alternativamente o seduzia.
E os amigos de David pediam mais uma cerveja. O engraçado desse ato é que, sempre que o garçom os servia era agraciado com agradecimentos, como se aquilo fosse um favor a eles. Apenas jovens educados (no limite do possível).
Olhares penetrantes demais já começavam a instigar os dois jovens de quase 30 anos. Foi então que, numa atitude explosiva, David se levanta da mesa, sem nem sequer cambalear, veste o chinelo do pé esquerdo e se dirige à mesa de Sarah. Senta-se sem pedir licença e pergunta “Qual o seu nome?”. Após isso, a conversa flui fácil. Aliás, havia o interesse mútuo.
Após uns trinta minutos de conversa, todos os amigos de Davis já se encontravam bem acomodados na mesa das garotas.
David, já envolvido com Sarah, descobre que ela namorava. “Mas aonde está seu anel, garota”. “Anel? Eu não compartilho dessas convenções. Prefiro que ele saiba que sou dele, mesmo sem uma marca. Não sou gado”. Com essas explicações ou não, David citaria, mais cedo ou mais tarde, a hipótese de eles saírem ou até mesmo ficarem lá, sem compromisso. E citou. Quando ouve a resposta “Tudo bem, vamos. Já não adianta fingir que eu não quero”.
Em uma atitude natural, os dois se retiram da mesa e seguem, com naturalidade, para um local isolado e próximo ao bar. Lá, enfim, lá ele fizeram o que todos fariam nessa ocasião. Beijaram-se, se apalparam, lamberam-se, roçaram-se de uma forma adolescente, se olharam de uma forma indecente, riram de uma forma infantil e começaram a conversar, quase no fim do dia, com o sol alaranjando o céu no horizonte.
- Você sabe, Sarah, que nunca mais nós ficaremos, né?, disse David com certeza.
- É bem capaz. Eu namoro; não daria muito certo
- Não. Não é bem por isso.
- E porque então?
- Por que eu percebi que foi muito bom, tanto para mim quanto para você.
- E o que tem isso a ver, perguntou Sarah indignada.
- Tem a ver com o Fittipaldi.
- Como assim, pergunta a menina, cada vez mais assustada com David.
- Veja Bem. O Senna morreu jovem, no auge da carreira. Todos lembram e o veneram até hoje. Se talvez tivesse vivido mais, nem sequer teria respeito. O Fittipaldi, apesar de todos os títulos e glórias que conseguiu, viveu tempo demais. Se, por exemplo, ele morra hoje pelas causas mais chocantes, como um suicídio ou um seqüestro, poucas pessoas vão realmente sentir algo por esse fato. Ele já não é mais um ídolo nacional. Depois de cinco anos de sua morte, poucos se lembrarão de que ele tenha tido qualquer relevância no esporte nacional. Durou demais esse rapaz, finalizou David
- Acho que eu entendi, respondeu Sarah, duvidando quem realmente estava breaco.
- Pois é, minha cara. Para ser inesquecível é bom que dure pouco. O mínimo possível
- Escuta, agora tenho que ir. Mas juro que pensarei a respeito do que me disse.
E se foi, junto com as amigas. Sarah partiria para nunca mais voltar David sabia disso. E voltou para casa pensando como algumas pessoas, pelo mínimo de tempo que seja, são especiais em sua vida.
Passaram-se muitos anos. Sarah casou-se. David também. Hoje, Sarah mora com seus dois filhos. O seu marido morreu, mas ela não tem lá grandes saudades dele. Vai aos dias de finado e no dia da morte dele limpar o túmulo e levar flores. Só por obrigação, assume Sarah. Ele, assim como Fittipaldi, que np início da carreira era imprescindível, foi ficando maçante com o passar do tempo. Não mais fazia carinho nela, apenas sentava-se ao sofá, colocava a mão por dentro da bermuda, abria uma cerveja e assistia aos jogos do Corinthians. Foi ficando esquecível como o piloto de sobrenome incomum.Sempre que ela lembra-se de David, algo de Ayrton Senna, com tema da vitória e tudo, batia mais forte em seu coração. Foi apenas uma vez. Eles nem chegaram a Ter maiores intimidades. Mas, talvez se isso tivesse acontecido, ele o encararia como seu marido que morreu. Em sua casa, Davis havia virado um Fittipaldi, pela primeira e única vez na vida, e se contentava com isso. Mas sabia, do fundo da sua alma, que ainda preferia as pessoas Ayrton Senna, mulheres que nunca saíram de sua alma.
Os defeitos são ambíguos
Puta que pariu! Já são dez horas. Tomar café da manhã! Neston com banana. Para piorar e atrasar mais, o cereal gruda no céu da boca de Jean, que, para tira-lo de lá, usa a sua própria unha e limpa os restos em sua samba canção. Tomar banho, escovar os dentes, se vestir e se apressar para ir à entrevista! Era sempre assim que Jean começava seus dias, mesmo quando estava empregado. O atraso na hora de acordar era seu amigo íntimo. Ele dividia sua cama na maior parte dos dias mais com o atraso do que com mulheres. Agora, nesses dias de desempregado, esse "mais um" nas estatísticas brasileiras ia às entrevistas de emprego regularmente, na intenção de conseguir algo para suprir suas dívidas, que logo precisariam de uns trambiques para ser pagas.
Saiu de casa, atrasado, em direção à empresa em que tentaria uma vaga para assessoria de imprensa. Mesmo atrasado, ele arranjava um tempo para conversar com a Glorinha, vizinha pela qual ele era apaixonado. Não que ela não correspondesse, mas isso era feito de uma forma tão banal, que deixava Jean a cada dia mais triste em saber que ela nunca prestaria atenção à sua paixão. Mesmo sabendo que o atraso era uma irresponsabilidade, Jean não hesitou de perder uns dez minutos sabendo como havia sido o fim de semana da vizinha.
No fim das contas, ele chegou antes do horário da entrevista e esperou no rol de entrada. O prédio, imponente construção na zona sul de São Paulo, às margens do Rio Pinheiros, fascinava pelo tamanho e pela beleza, mas não passava de mais uma construção qualquer feita para acomodar funcionários em horário comercial.
Quieto, Jean esperava a liberação para subir, com os outros dois candidatos à vaga, para o andar em que ocorreria a entrevista e aonde possivelmente o escolhido trabalharia.
Sentaram-se à mesa, se apresentaram, falaram das suas expectativas quanto ao curso que cursavam, no caso, jornalismo e debateram um pouco sobre suas experiências passadas. As mesmas balelas de sempre. Até que, de súbito, chega a pergunta mais clichê em entrevistas: Me diga uma qualidade e um defeito em você. Fácil responder a isso, quando começa haver uma percepção de que os defeitos podem e devem ser ambíguos nesse caso. Jean percebeu isso. Tanto que, na sua vez, disse, sem mais delongas, que seu pior defeito era a autoconfiança. Em que isso pode ser ruim? Em que isso pode ser bom? Pode ser bom para que a pessoa não se menospreze, mas pode ser ruim e arrogante em certos casos, dizia Jean. Não chega a ser perigoso escolher essas respostas dúbias, mas é preciso estudá-las antes.
É óbvio que nenhum candidato falaria que seu principal defeito é tomar cachaça na hora do almoço ou usar drogas no banheiro da empresa. Por isso que é preciso perceber e atestar as ambigüidades dos defeitos humanos. Com essa percepção apurada, talvez Jean tenha uma certa vantagem quanto aos adversários. Mas não foi sobre isso o que ele saiu pensando do imponente prédio na Av. das Nações Unidas.
No caminho da Universidade, dentro do ônibus, Jean montou o quebra cabeça dos defeitos. Se alguém, – pensava ele, - é muito perfeccionista, com certeza algo de bom há aí. A pessoa procurará, de toda forma, fazer tudo para que, não só seu trabalho, mas tudo na sua vida, saia correto. No entanto, isso pode ser maçante à vista alheia. Pense que essa pessoa deve ter a mania de colocar o cinzeiro milimetricamente ajustado no meio da mesa de centro da sala. Sem contar que não deve deixar, por nada no mundo, um tapete dobrado ou bagunçado. Jean começou a ter asco de pensar na parte ruim de uma pessoa com esse determinado defeito.
Determinação, pensava ele. Ser determinado é louvável. Ir atrás do que se quer, alcançar o que se deseja, é uma recompensa ótima para quem é determinado. Mas, algumas pessoas com menos paciência, e que não estão dispostas a colaborar com a determinação de alguém, - pensava Jean-, poderão, e com certeza irão perder a paciência com esse defeito ambíguo. Imagina uma pessoa que não está nem um pouco com vontade de comprar um limpador de abridor de garrafas tendo que ouvir o discurso determinado de um vendedor que, enquanto não consegue alcançar seu ideal, não deixa de chatear com o seu papo que é necessário ter um produto desses em casa, pois nunca se sabe quando você poderá ter um abridor de garrafas com o logo da Cherry Coke limpo novamente. Esse determinado vendedor não receberá respostas agradáveis de pessoas com bom senso.
Alguns minutos depois de chegar a essas conclusões, o ônibus já chegava perto da universidade aonde estudava. Quando ele desceu do veículo, se dirigiu ao bar em que seus amigos se encontravam antes da aula e foi contar, ansiosamente, sua nova descoberta, quando, assustadoramente, um amigo seu, o Aparecido, disse que também já havia percebido isso em uma entrevista recente. E que não é apenas em entrevistas que temos que fazer com que nossos defeitos sejam ambíguos. Tanto na vida pessoal como na profissional é necessário fazermos com que nossos defeitos sejam aceitos, com efeito. E, explicado o caso, Jean pediu uma cerveja, enquanto percebia que não tem jeito, é um defeito beber antes da aula, mas lhe faz mais sociável, em pequenas doses. E, além do mais, ele já havia desistido de fazer a Glorinha perceber que seus defeitos deveriam ser dúbios, já que sua paixão também não tinha lado bom. Não era nem sequer um defeito. Não era nada. Talvez fosse cólica.
Um Dia de cão, um mês de cães danados
Há algum tempo algumas mazelas dessa vida vinham me fazendo forçar o tempo passar mais rápido. Não só isso, a hora de dormir – um mergulho para respirar novamente – estava cada vez mais complicada de acontecer. Mesmo assim eu continuava a viver. Afinal, isso não é lá muita coisa.
Um dia, quando um desses problemas poderia ser resolvido, será colocado em voga neste texto. Era o dia da audiência do processo de agressão que eu haveria de responder. A agressão, mútua por sinal, havia acontecido entre eu e o meu tio. Em uma festa na casa de um vizinho, o Marcelo, mais conhecido como Macelo Nego Bebo, meu tio adentrou sua casa, fazendo cenas típicas de pessoas descontroladas. Eu tentei levá-lo para fora, para acalmar seus ânimos, mas ele só se descontrolou mais, me agredindo. Daí para frente, é só história.
O dia da audiência era uma terça feira, 26 de julho de 2005. O sol aquecia os lugares aonde ele penetrava. Na sombra, sentia-se o outono gelado da cidade de São Paulo. Então, às nove da manhã eu acordei, tomei café e um banho e me troquei para a audiência, que aconteceria às 13:30, no fórum do bairro da Penha.
Como um dândi, me vesti. O estilo das vestimentas eram semelhantes às do Brad Pitt no filme “Onze Homens e um Segredo”. Já que é para se foder na vida, que seja com estilo. Enquanto isso, eu esperava meu pai chegar em casa. Meu pai que, por sinal, fazia gracejos em relação à casa da minha advogada, que mora em um local cheio de animais típicos de fazenda, como cabritos, perus, bodes, galos e galinhas, em plena região urbana da cidade de São Paulo. Enfim, como várias pessoas, meu pai perde o amigo, nunca a piada.
Meio dia, meu pai chega e vamos em direção da casa da advogada. Minha mãe era uma pilha de nervos, enquanto eu e meu pai falávamos sobre o campeonato de Formula 1. Fora isso, meu pensamento estava no depois da audiência, na cerveja gelada, nas mulheres e no rock´n roll. No meio do caminho do fórum, uma pausa para apanhar a advogada.
A pegamos e fomos em direção ao bairro da Penha. Chegamos com uma hora de antecedência no local. Depois de um tempo, alguns amigos meus chegam para presenciar o que aconteceria. Enquanto nada acontecia, mais um comentário ácido do meu pai alegrava o ambiente. “Essa advogada parece que não bate muito bem”, dizia o meu velho. Isso se deu pelo fato de que ela nos fez descer e subir algumas vezes dentro do fórum para encontrar a vara criminal. Tudo bem, ela já tem lá seus 80 anos; é explicável.
Enquanto isso, meu tio chega com sua esposa e advogado. Logo quando chega, ele, apesar do desapontamento da sua esposa, deixa bem claro que não vai prosseguir com o processo e que terminará tudo naquele dia mesmo.
Entramos na sala do juiz e é iniciada a audiência. O juiz me olha e não entende o porque de tanta elegância para uma simples audiência. Aliás, nem meus amigos entenderam de início, mas riram depois que expliquei. O juiz pergunta, tanto para mim quanto para o meu tio, como andava nossa relação atualmente. A resposta foi a mesma “Tranqüila, tranqüila”. Na seqüência, ele pergunta qual o caminho que meu tio resolverá tomar, se continuará com o processo ou se cancelará ali toda essa palhaçada*. Ele diz que não quer dar continuidade, pois não quer me prejudicar e etc. Ta bom, vai. Eu finjo que é sincera essa afirmação. O juiz também finge e dá por encerrado o caso, me explicando que não rasgará o processo e apenas o cancelará. Fora isso, ele me explica também que 70% dos casos de homicídio são dolosos e cometidos por cidadãos normais. Não sei aonde ele quis chegar com isso, mas tudo bem.
Encerrado o caso, saio da sala da audiência, entro em uma outra, assino uma papelada e cumprimento minha advogada, o advogado do meu tio e, porque não, até meu tio. Claro que fiz isso com cinismo. Mas ele também foi cínico na hora de cancelar o processo. Afinal, se ele não o faz receberia um processo, por irregularidades em seu terreno, de 14 mil reais. Foi apenas uma troca justa.
Na volta, venho com meus amigos, de ônibus. Quando chegamos na minha casa, as cervejas forma inevitáveis. Apesar de tudo, tínhamos que comemorar. E, depois de três minutos do primeiro gole, o assunto já variava em dezenas de assuntos que não o processo. Minha mãe ainda comenta sobre isso até hoje. Mas mães são assim mesmo. Entendê-las é mesmo complicado.
No fim das contas, poderia ter ido à audiência com minhas vestimentas cotidianas, de bermuda, sem camiseta e chinelo. Isso é Brasil.
Helder Maldonado
A Mulher e o Tempo
Nem havia raiado o sol ainda, e ela já se colocava de pé, para seguir sua rotina, trabalhar, como em todos os dias da semana. Desligava o despertador, tirava o edredom, de uma vez só, de cima do seu corpo ainda quente, e coçava seus olhos, ainda pesados de sono.
Sentindo a brisa fria do inverno de São Paulo, Vanessa descia as escadas da sua casa e se dirigia ao banheiro, para tomar um banho e escovar os seus dentes. Era sempre assim, dessa mesma forma. Depois disso, o café da manhã, que muitas vezes tinha que descer rápido, para que ela não chegasse atrasada no serviço.
Enquanto esperava o ônibus, ela só pensava e desejava estar vivendo uns anos a frente, quando ela esperava não ter mais problemas tão difíceis para resolver. Era uma aflição que lhe açoitava. Perguntas sem resposta vinham à sua cabeça. Situações que se emaranhavam e se resignavam com dor no seu coração. E essas mazelas faziam com que ela agisse de forma automática, flutuante, quase sem sentir. Já não havia mais prazer em nada, apenas rotina, obrigação. Desde que entrava no ônibus e mesmo quando descia do coletivo, na hora que estava de volta a sua casa, nada, absolutamente nada, tirava sua atenção de dentro dos seus pensamentos.
De tanto se remoer, ela se pôs a chorar no colo da sua mãe um dia, e, sem deixar a voz sair, tentou contar o que não queria. Segredos que não podia contar, mas não conseguia guardar. Seus amigos nem percebiam que seu olhar longe, fora de foco, era de um problema tão grande quanto os mensalões do governo Lula.
Esse sentimento infantil fez com que Vanessa começasse a agir de forma frívola em relação a tudo e a todos. O que, depois de um tempo, causou uma azia na relação pessoal dela com seus conhecidos. Em seu belo rosto de menina, nenhuma luz mais brilhava, nem mais um raio de alegria saía do seu sorriso, nem mais uma gota densa de esperança podia vir de suas palavras.
Ela só sentia vontade de fugir, para o futuro ou voltar para a infância. É a velha forma de pensar que no futuro será melhor ou que o passado, sim, é que era bom. O problema é que, por mais frustrações que passemos, as lições devem ser adquiridas guardadas com tanto apreço quanto se guarda uma lembrança de uma pessoa que se ama. Mas Vanessa não sabia o que fazer com suas tristezas, se ser submissa a elas ou se procurar matá-las, com armas que não deixassem rastros de tristes dias em seus olhos.
Passaram-se alguns dias, meses e anos, até, e suas melhores amigas agora eram suas tristezas. Com cerca de 35 anos, Vanessa ainda chorava no colo de sua mãe e ainda tinha um olhar sem foco. Enfim, convivia com a tristeza como amiga íntima. Até mesmo morada dentro dela a tristeza já havia feito. Um tumor maligno em seu coração se expandia a cada dia. Era tanta cumplicidade entre Vanessa e sua amiga que nem sequer a tristeza vinha lhe incomodar. Montou sua casa e nem sequer sujou de cimento seu coração. Apenas colocou um peso em cima dele, em todos os anos que se passaram até esse ponto chegar.
Algumas amigas da tristeza também vieram conhecer Vanessa. A mágoa, o arrependimento, o rancor, que, aliás, bebe bastante, e a impaciência passam temporadas enormes pelas bandas do coração de Vanessa.
Sem perceber, esses inquilinos a tornaram cada dia menos sociável. Seu comportamento era como de uma mulher 30 anos mais velha. No entanto, a casa da tristeza cresceu, e mais alguns cômodos foram construídos para os seus amigos. O tumor que abrigava cresceu, chegando em um ponto em que Vanessa, em um dia de rara alegria, ao lado de amigos que não via há muitos anos, subitamente levasse a mão ao coração e desse adeus ao último dia em que pôde ser triste. Apesar de tudo, ela adorava ser daquela forma. Não lhe incomodava não rir como uma idiota na fila do show do seu cantor preferido. No entanto, um sorriso, meio de lado, com um sarcasmo belo surgiu antes do seu último suspiro. Do seu sorriso saltou raios de felicidade, que ofuscaram por um tempo o sentimento de tristeza, momentânea, no entanto, que seus amigos sentiriam ao ter que avisar a todos que, fisicamente, Vanessa havia morrido.
Helder Maldonado
Meu Encontro Comigo Mesmo
Sentou em uma cadeira do bar, com a cabeça altiva do orgulho que sentia de si próprio, e pediu um conhaque. No fundo, ele não queria fazer aquilo. Jamais pensava que chegaria ao ponto de sentar-se sozinho em um bar. Na verdade, não sozinho, mas com a tristeza e a palidez no olhar como companhia. As paredes do bar apoiavam seus ombros cansados da má postura que tinha ao sentar para trabalhar. Aliás, trabalhava em um lugar que não lhe agradava. Na verdade, muito em voga era a sua insatisfação com tudo. Nem sempre a cerveja estava na temperatura desejada e o conhaque, às vezes, tinha que descer sem mel ou limão, que sempre estava em falta nos bares que freqüentava.
Encostando a cabeça nas paredes lisas e amareladas do bar, o pobre rapaz, ainda com os pés frios do inverno de São Paulo, olhava em direção à Tv e nada enxergava, a não ser seus últimos dias e os ensinamentos que ele os trouxera. Toda luz que ele trazia em seu olhar fora apagada como um incêndio qualquer que ocorre em favelas de capitais brasileiras, a maioria das vezes por curto circuito causado por “gatos” feitos pelos moradores. Curto circuito era também o que parecia devastar sua bondade e seu coração que, até o presente momento, era apresentado e admirado por todos como uma das mais belas jóias encontradas nos últimos tempos.
Ele bem que tentou ser mais humilde e não aparentar tanta amargura, mas não deu. Por mais que tentasse lapidar seu coração de novo e tentar entregá-lo de presente para um outro alguém, ele duvidava dessa sua capacidade. Ele, por um bom tempo, queria ficar só. E só, pensava que poderia resolver seus problemas. Engano ou não, o fato é que ele nessa situação se sentia mais confortável para se entregar a si mesmo e não ser obrigado a dar explicações sobre o seu comportamento.
A mesa já estava com alguns copos e algumas garrafas vazias. Nada que o deixasse bêbado. Muito menos coragem ele precisava adquirir dessa forma. Toda a valentia favorável a um homem ele tinha dentro de si próprio. Uma altivez de dar medo a um gigante. Certa vez, ele surpreendeu a muitas pessoas de uma só vez. E até pensava em continuar fazendo isso com seu adjetivo maior, mas já não tinha a mínima paciência para demonstrar quem ele era. Ele queria, de uma vez por todas, mostrar o porquê era daquela forma. Ninguém o entendia e tratavam essas suas qualidades de forma que não pudesse demonstrar toda sua capacidade de ser o humano menos desumano possível.
Enquanto pensava nisso, sozinho, em um bar úmido demais para um clima frio, ele se levantou, pegou seus pertences e saiu pela porta do bar, sem olhar para trás. Lá dentro, algumas imagens sempre surgiam em sua mente e, quando olhava para trás, algo lhe dizia que ele talvez tivesse sido fraco em algum momento da sua vida. Mas não era isso. Forte ele foi até demais. Aliás, para derrubá-lo foi preciso a força de algo que tivesse o efeito de uma arma nuclear, forte, no peito, repetidas vezes. E essa dor de ser atingido o deixava tão triste e tão feliz. Tinha dias que ele acordava no meio da madrugada e conseguia, como em um arquivo bem organizado, lembrar de todas as mulheres que havia amado e pelas quais havia ainda um afeto. Elas surgiam na sua cama, com seus perfumes, seus olhos, seus trejeitos especiais e com o seu adeus. Nem todas deixavam um adeus. Um até logo bastava. Mas o até logo doía mais forte nele. Essa ponta de esperança que se arrasta como um velho aleijado, pedindo esmola na Praça da República, dói muito mais que um porre homérico de doses pequenas de cachaça pura com o estômago vazio.
Não olhou mesmo para trás. Saiu do bar, como sempre, como se fosse a última vez. Caminhou por um tempo, olhou para a lua – levemente amarelada como o seu olhar – e resolveu ir caminhando. Hoje ele queria se encontrar com o mínimo de pessoas possíveis. Colocou a mão no bolso e, dentro, encontrou alguns bilhetinhos - devidamente separados para essas horas – e os leu em voz alta, a caminho de casa. Alguns doíam, outros alegravam, outros, simplesmente, eram tão falsos quanto seu relógio de pulso. Enfim, todos foram escritos, com verdade ou não, em sua homenagem. Talvez, no meio do caminho, ele encontrasse uma placa em tributo à sua pessoa, mas ele duvidava.
Leu, releu, sorriu, chorou, se emocionou, chegou em casa e ainda não era nem duas da manhã. Pegou o telefone e pensou em ligar para ela. Mas desistiu. Talvez fosse melhor que continuasse assim. Palavras demais tinham feito todos eles e elas se magoarem. Só pode olhar para a TV, desligada, ligar o rádio, pegar um copo de água, coçar sua média cabeleira escura e grossa, enquanto seu cachorro implorava por um pouquinho de seu amor, renegado, como muitas vezes o fora o seu por algumas pessoas. Não importava, hoje ele foi dormir feliz. Era assim que se sentia bem, quando nada mais pesava. Fazer o que ele fez era como queimar o passado, rasgar cartas, matar as lembranças e as saudades. Nem acordar no meio da madrugada ele acordou.
No outro dia, com a maior simplicidade do mundo ele resolveu dar valor a coisas que há muito tempo ele não sabia o que era, como passear com seu cachorro ou lavar seu carro, pouco utilizado pela falta de dinheiro em encher o tanque de combustível. Hoje, ele estava leve. Ligou o carro e saiu com o destino ao seu lado, sem destino da onde queria chegar. Chegou em si mesmo, em uma curva da Rodovia Presidente Dutra. Encontrou seu corpo jogado em uma ribanceira com capim à meia altura e sua alma acima do sol. Já não sofria mais. Hoje ele saía de cena e deixava para trás algumas histórias, só para ser lembrado, só para ser sentido, só para ser encontrado leve e feliz, como jamais estivera, principalmente só e em uma estrada.
Helder Maldonado
Mais Um Dia
Acorda de manhã, pelos lados da zona leste de São Paulo, mas um cidadão comum. Sem muitas perspectivas na vida, ele só pensa em sorrir. Quando entra no chuveiro e tenta assoar o nariz, uma veia estoura, e o seu sangue escorre em bicas para o ralo, aonde todo a sua tristeza tenta, em vão, ir junto.Ele se recupera, tenta ficar menos triste depois desses danos físicos, mas não consegue por muito tempo. Quando ele, Romeo, pensa que pode ter um pouco de prazer, se deliciando com seu almoço, a chuva o pega distraído no meio da rua, a caminho do restaurante . Sua roupa fica encharcada enquanto seu cabelo cai em sua testa. As gotas de chuva se confundem com suas lágrimas, que são secas com a manga da camisa, enquanto ele dá aprimeira garfada e toma um conhaque para se aquecer do fraco frio de inverno paulistano. Nesse momento, seu desejo é apenas, para acabar com esse dia de cão, poder voltar para casa antes de que a neblina o torne invisível para os caminhoneiros.
Olhos Verde Oliva
"Seus olhos são espelhos d`água guiando você pra qualquer um". Não, não essa música. "Quando a luz dos olhos teus, e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar" . Ainda não, ainda não é essa. "São olhos iguais ao seu, iguais ao céu ao seu redor" Não!!!! "Morena, dos olhos d´água" Chico Buarque, me desculpe, mas também não é essa música. Poderia ser, mas não é essa música ainda. O importante é que todas falam de alguns olhos, que, assim como os seus, fascinavam alguém.
Eu não posso mais, por um instante, conversar com você e não olhar diretamente em seus olhos. Você sabe que quando me olha, meio de lado, mesmo quando finjo que não percebo e você finge que não está olhando pra mim, eu sinto seus grandes olhos verde oliva me massacrando no canto da parede mais próxima.
Eu agüento, com suspiros ofegantes, seu bombardeio no olhar. E, no fim, você sabe que eu gosto. Eu nunca quero perder os seus olhos. Mesmo quando eles me fitam, distante, eu ainda os amo. De perto, quase tenho a vontade, mesquinha, diga-se de passagem, de roubá-los para mim. Isso tudo, na vontade de ter você sempre a olhar diretamente para o meu rosto. Mas de que valeriam apenas seus olhos, se teu sorriso largo não viesse junto? Eu não sei o que responder. Só sei que qualquer um dos dois me valem os dias.
Todos meus amigos comentam de você. Comentam libidinosamente. Comentam de tantas formas que, se fosse listar, não caberia em uma lauda. Mas, felizmente, nenhum deles comentam de você com um romantismo quase juvenil nas palavras que, quase nunca, saem da forma que deveriam. Por isso, me retenho a olhá-la, a admirá-la, de perto ou de longe. E você, disfarçadamente, retribui.
Junto dos seus olhos, seu cheiro vem à minha memória. Não adianta querer fingir que nada aconteceu. Agora, já é tarde, já não tem saída. Estamos ilhados em sentimentos puros e escondidos que esperam assiduamente como idosos na fila do INSS. A demora deixa os sentimentos saírem do seu corpo como espinhas, explosivos, em ponto de ebulição. E, quando estamos juntos, nada mais importa. Não importa que, lá fora, você tenha outro alguém. Não importa se, lá fora, você tenha algo urgente, para hoje. Nós deixamos nossas vontades para ontem. Hoje, nada mais pode ocasionar o adiamento dos nossos corpos sentindo a temperatura alta e os lábios quentes na orelha.
Sobre Nossas Vidas
Em um dia quente de fevereiro de 2003, as vidas de alguns jovens sofreriam mutações irreparáveis para o resto da vida deles. Na Mooca – para ser mais preciso – essas pessoas se encontraram, a maioria pela primeira vez, em uma sala de aula do curso de jornalismo. Com cerca de 18, 19 anos cada, eles ainda estavam confusos sobre o porquê que estavam naquele lugar.
Passado alguns meses, muitos já não estavam por lá. Alguns desistiram, viram que não era realmente aquilo que queriam. Outros, mesmo ingressando no curso algum tempo depois da maioria, fizeram história e foram muito importantes para aquela sala. Mesmo com um tom nostálgico, esse texto não pode ser encarado assim. Ele se encaixa numa classificação de “Saudades do que ainda não foi”. Deve ser por aí.
Interesses em comum, mulheres bonitas, rapazes inteligentes, professores capazes(não todos), cerveja gelada, cultura, cerveja gelada, mulheres bonitas, rapazes inteligentes e cerveja gelada. Essa comunidade se porta assim. Interessantes, inteligentes, bonitos, jovens, educados(nem todos) e com ânsia de engolir o mundo de uma só vez. Ânsia de conhecer a todos, ânsia de mostrar para todos o seu potencial. Vontade de viver. Vergonha de chorar. Assim podemos classificá-los.
Idas ao bares, discussões sobre futebol, mulheres e homens interessantes, ida a casas noturnas, sítio e praia. Tudo isso foi feito em conjunto. Essas vidas - anônimas aos olhos da sociedade - se acham especiais. Eles são especiais. São mesmo. E eu os agradeço por isso. Não que eles tenham feito algo especial para mim, mas apenas o fato de eles existirem como são já basta para eu chamá-los de especiais. Claro que alguns são especiais de formas diferentes. Alguns se encaixam no perfil “especial aka retardado”.
Alguns casais se formaram ali também. A grande maioria, arrisco em dizer, não durou muito. Alguns perduram, outros vão e volta, outros poderiam ter dado certo, outros poderiam ter dado errado e o contrário de tudo isso aconteceu. Outros, bem, outros são simples de coração ou complicados demais.
Em um dia desses, percebendo que a reta final está próxima, algumas pessoas vieram me contar, meio ressabiadas, que estavam com medo de que, chegado o fim do curso, as pessoas, seus amigos, evaporassem como gotas geladas em uma lata de cerveja debaixo do sol escaldante de Maceió. Meio de soslaio, eu resolvi responder para eles, em alto e bom tom, que não se preocupassem. Eles não me ouviram. E com razão.
Toda separação, principalmente quando o relacionamento está muito bem, obrigado, causa um trauma indelével às pessoas. E não é só em fim de ciclos da vida. Ciclos são feitos para aprendermos, por mais traumáticos que sejam. Eu tento lhes explicar, mas ainda não consigo entender direito.
Quando acabou o colegial da maioria das pessoas, poucos voltaram a ver de novo grande parte dos que estudaram juntos. O orkut fez essa galera se rever. Mas, cá pra nós, essa rede de encontros não mata as saudades das peripércias fanfarrãs que abalaram estruturas escolares em outros tempos. Hoje, na rua, se você encontra uma dessas pessoas, dependendo do humor, evitará olhar em seus olhos, trocará de calçada, esperará outro ônibus e irá embora escondido. Você até gostaria de saber com ele está. Se já se casou, se já tem filho, no que trabalha, se já comprou seu carro, se já foi preso ou processado por alguém. Mas, um bloqueio mental causado por anos a fio em frente ao nada interno, te faz não ter muito o que falar para essas pessoas, que, depois das pergunta essenciais, só lhe dirão “E o Renato? Tem visto ele?”. Você não viu o Renato e, na verdade, nunca falou muito com ele.
Não se deve dizer adeus. Além de forte e estranha, essa palavra também resulta nesse bloqueio que existe nas conversas com pessoas há muito tempo não vistas. Algumas pessoas chamam esse bloqueio de “Bloqueio causado por excesso de tempo diante do seu nada”. Deve ser isso
Então, espero que, quando chegar a hora que saberemos que não nos veremos mais diariamente, eu espero não ouvir adeus uma única vez. Espero que você possa ir embora sem condolências, cornetas, cavalarias, arroz e “eu vou fazer isso, pois pode ser a última...” . Balela. E, se alguém vier me apertar a mão ou me abraçar, dizendo “Foi muito bom...” eu responderei “Ainda não foi tão bom, o melhor está por vir”. Se houver uma despedida, nunca mais conseguiremos falar sinceramente com inocência entre nós.
Agora, peçam mais uma cerveja. Se beijem de novo. Esperem por alguém que nunca vem. Esperem o fim do mês. Esperem pelo que não deveriam esperar. Peçam, em voz alta, para que as entidades mais variadas de suas religiões os ajudem a passar de ano, sem que esse ano passe para você a impressão de ciclo terminado.
Espero atitudes assim. Espero que vocês sejam sinceros o suficiente para ver que, apesar de parecer, nós não estamos juntos à toa. Algo mais forte que qualquer tese ou livro pode explicar o que nos une. E essa união, se não for traumática, será para sempre, mesmo distante, mesmo longe, mesmo com adversidades. Haverá um tempo e uma chance para que relembremos o quanto fomos felizes.
O impacto desse texto é pífio nesse outono quente. No verão do ano que vem, ele poderá causar sentimentos ruins ou bons. Mas o intuito verdadeiro é apenas causar em vocês a vontade de não querer somar mais alguns amigos de memória.
Novela
Genival chegava em casa mais uma vez. Era sexta feira. Ele, cansado de tanto soldar carros na linha de montagem aonde trabalhava, só pensava em um bom banho, em um bom jantar, uma gelada garrafa de cerveja e em boas notícias no Jornal Nacional e, depois disso, em uma noite agradável com sua esposa.
Marli, a aplicada esposa de Genival, estava a cozinhar um dos cardápios prediletos do maridão, arroz, feijão, carne seca e salada de alface. Simples, mas ele gostava assim. Simples. Um beijo às seis. Era o primeiro do dia.
Após o banho, o abridor arrancando com violência a tampa da garrafa marrom escura, que até hoje são usadas para a comercialização de cerveja e tubaína, fazia o empenhado soldador da Ford se sentir um rei. O cheiro da comida invadia toda a casa. Enquanto isso, William Bonner anunciava que o dólar baixou. Quando a esposa de Bonner, Fátima Bernardes, anunciaria a contratação de uma nova estrela para o Corinthians, da cozinha resplandecia uma voz feminina. “Venha jantar, amor”. Era sempre assim. Simples, mas ele gostava.
Com sua garrafa de cerveja a tira colo, Genival encaminhava-se para a cozinha, que era o cômodo mais próximo da sala de sua casa. Servido com prazer pela mulher, ele já salivava ao ver que, além do cheiro, a comida tinha uma ótima aparência. Um muito obrigado, e a primeira de muitas garfadas. Comeu em um súbito silêncio, interrompido apenas por indagações do tipo "Como foi seu dia". A resposta, exceto por problemas muito graves, sempre era positiva. Talvez não tivesse realmente sido muito agradável o dia, mas era sempre essa a resposta.
Genival, após repetir a refeição, arrotou de leve, enquanto mastigava um palito de dente. Marli tirava os pratos da mesa, se apressando em lavar a louça, já que a novela começaria dentro de dez minutos, e hoje era o dia do último capítulo. Muita apreensão na casa. O marido, como era de praxe, não ajudava nesses afazeres. Se retirava da mesa, subia até a sacada da casa e fitava as estrelas. Às vezes, quando dava sorte(ou azar) tinha a companhia de seu vizinho de parede, o Lúcio. Lúcio era dono de mini mercado. Esses mercados de bairro, no qual o principal lucro é obtido quando a compra do mês dos moradores, que geralmente preferem fazê-las em super mercados, está no fim.
Lúcio, corinthiano roxo e doente, bem como Genival, sempre puxava assunto. O soldador da Ford, quase sempre de bom humor, dava continuidade a longos 15 minutos de divagações sobre futebol, Fórmula 1, economia, mulheres e família. Há muito tempo os dois já se conheciam; eram vizinhos desde que se casaram, em 1992. Lúcio tinha dois filhos, o Lucas e o Luciano. Genival, por um problema no útero de Marli, não tinha nenhum. Pensou em adotar uma criança, mas mudou de idéia, logo em seguida.
Passado cerca de quinze minutos, Genival desceu as escadas de sua casa, pegou mais uma cerveja e acompanhou sua mulher no último capítulo da novela. Não que ele gostasse de novela, e nem sequer assistia, mas era o último capítulo. O último capítulo ninguém deveria perder, segundo Genival. Tudo bem que ele não conhecia muito bem a trama, mas entenderá, assistindo o derradeiro capítulo, porque sua mulher chorou tanto em sextas feiras – capítulo – final – de – novela. Nada de especial acontece, mas é interessante. Segundo Genival, assistir a reprise, tradicionalmente veiculada no sábado, que é chato. Isso por que, no bar, no sábado de manhã, todos já sabem.
O último capítulo se arrasta por uma hora, e Marli chora com o que acontece com o personagem principal. Ou será que ela chora por ser o último capítulo? Nem Genival sabe. Nem ela mesmo sabe. Genival não vê razão para chorar. E ele espera impaciente o fim do capítulo, para subir para o quarto e ter uma inesquecível noite de amor com sua esposa.
Acaba a novela. O casal sobe para o quarto. Marli ainda discute pontos essenciais do último capítulo. Genival, após três garrafas de cerveja, está impaciente. Eles trancam a porta. A novela da vida real começa. Ele se esforça para não chorar, enquanto ela já não vê mais graça nenhuma neste capítulo final do dia a dia.
Quase Conformismo
Sempre que perco alguma coisa de valor, seja material ou sentimental, eu prefiro pensar que quem a encontrou, e agora é seu proprietário, necessita ou fará melhor uso desse pertence do que eu. Às vezes se perde uma aposta, e então pode - se fantasiar que aquela caixa de cerveja não faria assim tão bem. Aliás, você está tomando remédio, nem pode beber. Aquele dinheiro conseguido com tanto esmero, que se foi num descuido ao abrir à carteira, pode ter servido para alimentar uma família faminta. Melhor que tenha sido mesmo. A tua ex-namorada, loira, seios enormes e, pasmem, até inteligente, pode estar melhor nos braços do novo namorado dela, um lutador de jiu-jitsu. No fim das contas, você nem gostava dela. Ela, principalmente, não gostava de você.
Parece papo de conformista exagerado. Não é. Não é pelo fato de que, em certas ocasiões, o conformismo chega a nos auxiliar. Não fosse assim, o desespero entraria em cena e levaria todo o resto que você ainda não perdeu, com a força de um vento minuano. Óbvio que não se deve ser conformista quando batem na tua cara, bebem no teu copo ou fumam teu cigarro e te devolvem cheio de saliva. Não se conforme com isso. Essas ações são típicas de um outro tipo de pessoas, os conformistas. Isso mesmo. Esses sim são conformistas assumidos, pois, além de nunca procurarem fazer algo para comprarem sua própria cerveja e cigarro, acham que estão sendo espertos usurpando os outros. Então, tá.
Você, que se encaixa no perfil do primeiro parágrafo, pode ser considerado um perdedor, no sentido mais literal da palavra. Porque você perde as coisas freqüentemente, e não por que é indigno de respeito. E se conformar com coisas que já não te eram dignas não é lá tão ruim. Pense, por exemplo, que depois de perder R$ 100 você ganhe um DVD da sua banda preferida numa promoção. Impossível? Não mesmo.
Outra coisa almejada por muitos e tentada por poucos são as promoções. Normalmente, quase todos evitam participar pensando que não vão ganhar, que o resultado é forjado, que não passa de balela. E é aí que todos se enganam. São poucos concorrentes para os prêmios. Eu já ganhei quatro promoções na minha vida. Se for se comparar com a minha idade, 19 anos, é muito; dá cerca de um prêmio a cada cinco anos. Mas essa estatística é irreal, pois ganhos essas promoções desde os 16 anos; portanto, uma por ano.
Fora eu ter ganhado promoções, amigos meu também já ganharam. Um, em específico, ganhou um dos maiores presentes da vida dele: conhecer a maior banda na opinião dele, o Bad Religion. Por essas e outras que é imprescindível saber dosar o conformismo. Quando ele beira o desespero, deixe – o imperar, quando ele pode ser evitado, como no caso das promoções, bata na cara dele, chute – o no pâncreas e mande - o para a puta que pariu.
Helder Maldonado
O Estranho Fenômeno Verbal
Você está ficando um pouco velho. Cansaço ainda não demonstra, mas seu cabelo já dá sinais de que não és mais jovem, pelo menos na aparência. Esses empecilhos que a vida nos proporciona não são fáceis. Você está bem, não se preocupe. Veja só, ainda agüenta dar um pique do mercado até em casa, mesmo quando eu aperto o passo!
Ainda lembro do cheiro de eucalipto que a noite proporciona àquelas árvores da rua de cima. Deixam nossa caminhada noturna mais agradável. E não é só nós que achamos isso. Aquele casal, dono da vidraçaria da rua de cima, aproveita para fazer visitas à noite aos antigos vizinhos. Ela, com cerca de 50, ele, um pouco mais. Não importa, a noite está quente e eles também querem sair.
Os cachorros, até mesmo os que não passam de filhotes, estão todos com a língua para fora, pedindo clemência para a temperatura alta que assola São Paulo, até, quem diria, após o sol se despedir, com um colorido alaranjado, típico dos dias de verão na cidade mais estranha e bonita de que se tem notícia.
Você notou tudo isso? Talvez não. Tenho quase certeza que não, aliás, você nunca foi muito detalhista. Fica como desculpa os cabelos que te tampam os olhos, certo?
Eu penso se ela está em casa. Sei que tenho sua companhia, mas ela me oferece coisas tão especiais, começando pelas suas palavras. O que me mata é aquela antiga mania dela, lembra – se? Não sei se só ela que é assim. Acredito que todas as mulheres fazem isso, e com prazer. Outro dia, veja só, uma garota, com seu namorado, fazia o mesmo. Doía em mim. Não vejo graça nisso. Você também não, eu sei. Afinal, tirar cravos do nariz do namorado, com unhas que disputam de igual para igual com as do Mojica, não é prazeroso para ninguém. Quer dizer, para quase ninguém, pois grande parte das mulheres que eu conheço chegam mais rapidamente ao orgasmo dessa forma do que fazendo o jantar para alguém que não vem.
Está com sede? Vá tomar água, eu te espero. Bem, já que não demorou, você deve concordar comigo que água é incolor, tudo bem; mas inodora já é demais, não? Eu conheço o cheiro de água. Muitos conhecem, mesmo quando ela não está com cloro ou com sal. Sim, eu sei. Ta, discutamos isso outro dia, hoje eu não quero discordar de você. No entanto, quero te pedir uma coisa, tudo bem? Chame ela para mim. Eu sei que ela não está, mas isso me dá um conforto, já que dormirei sabendo que eu tentei. Ta, foi você quem a chamou, mas eu que tentei.
Foi bom tudo isso, mas acho que vou para o meu quarto, tentar viver o calor enquanto esperamos o dia de amanhã, que, para todos, quase sempre, será esperançosamente melhor. Boa noite, amigão. Amanhã eu chego mais cedo, então poderemos lembrar de memórias recentes e pouco interessantes, mesmo que rendam umas risadas após o jantar. Até amanhã , às seis, beleza?. Au.
Helder Maldonado
Aerosmith - Rocks
Artista: Aerosmith
Disco: Rocks
Gravadora: Columbia
1976
O Aerosmith, ao contrário do que muitos pensam, é uma banda com trinta anos de estrada. Além disso, é um grande nome do Hard Rock da década de 70. Foi nessa década, também, que o Aerosmith lançou suas duas grandes obras: "Toys in The Attic", e o disco em questão, "Rocks". Lançado em 1976, esse disco, mesmo atualmente, é considerado um dos grandes clássicos do Rock´n Roll.
Muito bem aceito entre crítica e público, esse álbum inicia -se com a música "Back in the Saddle", um petardo sonoro com uma cadência meio "galopante", causado pelo baixo originalíssimo de Tom Hamilton. Nessa música, fica evidente o quanto mudou a voz de Steven Tyler da década de 70 até atualmente. A faixa dois,"Last Child", conta com um baixo e uma guitarra altamente influenciados pelo Funk setentista. A parte mais especial de "Last Child" fica por conta de seu solo, executado com grande cuidado e maestria por Joe Perry.
A faixa três, "Rats in the Cellar", é bem rápida e flerta, diretamente, com o punk. Poderíamos dizer que "Rats in The Cellar" é o punk mais bem feito de todos os tempos. Sério!!! "Combination" vem logo à seguir. Essa música tem um dos riffs mais interessantes do disco, e, em seu final, conta com microfonias bem legais e bem postas.
A quinta música de Rocks é a mais alegre do disco e chama-se "Sick As a Dog". O clima alegre da música, em um dado momento, o do solo, é quebrado, se transformando, então, em uma músic sinfônica. "Nobodys Fault" tem um clima denso e passaria, não fosse o vocal, por uma música do Led Zeppelin, tal influência de Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham no som.
"Get the Lead Out" é considerada pelos fãs a música mais fraca do disco. Não existe nada de interessante nela, salvo o vocal do refrão que soa quase que original.
"Lick And Promise" é com certeza a música na qual o baterista, Joey Kramer, se destaca. Além de ser dona de um duo de guitarra maravilhoso, a música ainda consegue dar espaço aos sempre "exagerados" vocais de Tyler.
Garanto que já estavam achando estranho, até agora, não ser citado nenhuma balada. Pois quem conhece o Aerosmith dos últimos doze anos só ouviu baladas deles, músicas como "Crazy", "Falling in Love is Hard On Knee", "Amazing", "Hole in my Soul", "Fly Away From Here", "Jaded", entre outras . Não que eles não façam lindas músicas românticas, mas só fazer músicas românticas, pelo menos para singles, é extremamente maçante.
Pois bem, "Home Tonight" contém um clima bem interessante. Com um vocal melancólico e com um importantíssimo back´n vocal do batera, Joey Kramer, a música poderia, atualmente, ser mais uma daquelas baladas incessantemente tocadas pelas FM´s do mundo inteiro. Um disco imprescindível para fãs de rock'n roll.
Integrantes: Steven Tyler – Vocal, Teclado e Baixo em "Sick As a Dog"
Joe Perry – Guitarra Solo, Vocal, Baixo de Seis Cordas em "Back in The Saddle", Lap Steel Guitar em "Home Tonight" e baixo "Sick as a Dog".
Tom Hamilton – Baixo e Guitarra em "Sick as a Dog"
Joey Kramer – Bateria, Percussão e Back´n Vocal em "Home Tonight"
Brad Whitford – Guitarra Base.
Participação Especial: Paul Prestopino – Banjo em "Last Child"
Track List
1- Back In The Saddle
2- Last Child
3- Rats in The Cellar
4- Combination
5- Sick as a Dog
6- Nobody's Fault
7- Get the Lead Out
8- Lick and Promise
9- Home Tonight
Musas Esquecidas
Quando se cita a palavra "musa", logo vem à cabeça mulheres esplendorosas, glamurosas, loiraças de cabelos esvoaçantes ou morenas de grandes dotes "nadegais". E os nomes que condizem com esses atributos oscilam entre Feiticeira, Deborah Secco, Madonna, Pamela Anderson, Sharon Stone, Carla Perez, Scheila Carvalho, Britney Spears, Beyónce, entre outras. No entanto, o intuito desse texto é lembrar que uma mulher não necessita de ter todos esses dotes. Na verdade, não precisa de nenhum deles. Como? Irei explicar mais à frente.
Existem, e em maior número, diga - se de passagem, mulheres mais simples que despertam a libido de muitos homens e que nem são lembradas quando da citação da palavra "musa". Essas mulheres estão em todos os lugares. Pode ser sua vizinha, sua esposa, sua irmã, e até, pasmém, sua mãe. São mulheres que vestem roupas normais, usam maquiagem leve, mantêm uma cor sóbria nos cabelos e usam roupas simples, feitas para qualquer ocasião.
Não irei citar "musas" anônimas como exemplo, pois se fosse fazer isso garanto que demoraria cerca de umas três semanas para finalizar esse texto. Por isso, segue abaixo uma lista de mulheres famosas que podem ser consideradas "Musas Esquecidas".
Polianna Abritta - Jornalista
Quem? Como assim, "Quem"? Se você assistiu ao Jornal Hoje nos últimos seis meses, no mínimo, já deve saber de quem estou falando. Polianna Abritta é a correspondente de Brasília para o Jornal Hoje. De cabelos escuros, um belo corpo esguio e olhos claros, a morena consegue roubar o coração de quem a assiste. Além de ser bela (acima da média das jornalistas), Polianna realiza com competência seu trabalho.
Ana Paula Padrão - Jornalista
Bem, dessa jornalista vocês indubitavelmente já ouviram falar. Formada em jornalismo pela Universidade de Brasília, Ana Paula está na Rede Globo desde 1987. É, realmente ela já não é mais uma garota. Mas, apesar da idade, a ex-bailarina continua conceituada entre as mais belas jornalistas da Rede Globo. Cabelos escuros, cortados há muito tempo da mesma forma, curto, pele branca e sempre bem cuidada, a apresentadora do Jornal Da Globo expele simpatia em seu sorriso e na sua maneira de se comunicar. Dona de uma dicção perfeita, a "Tia" Ana Paula, além de ser extremamente bela, cumpre com esmero sua função de âncora de jornal. Não obstante, ela ainda é uma perita em economia e dona de um belo corpo que seus anos como bailarina lhe proporcionaram.
Bruna Thedy - Atriz
Essa jovem atriz, de apenas 21 anos, ainda é, de certa forma, desconhecida pelo grande público. Apesar de ter feito o seriado Sandy e Junior por três longos anos, Bruna é muito mais conhecida no teatro. Além do seriado Global, Bruna também fez o filme "De Cara Limpa", no qual também trabalharam Marcos Mion, Silvinha Faro, Bárbara Paz, entre outro jovens artistas. Como uma boa atriz nunca mantêm um visual por muito tempo, ela também segue a regra. Já foi ruiva, loira, morena, enfim, já foi de tudo um pouquinho, muitas vezes, e unicamente, para interpretar papéis específicos. Dona de um corpo, digamos, volupituoso, essa gaúcha adora vôlei e Legião Urbana, sua banda preferida.
Joss Stone – Cantora
Com apenas 18 anos, essa inglesinha do interior, surpreende, atualmente, o mundo inteiro com sua voz, que já foi comparada com cantoras do quilate de Janis Joplin e Mavis Staples, ícones do rock e do jazz, respectivamente. Com seus lindos cabelos loiros e ondulados, Joss, mesmo por ser apenas uma adolescente, detém um rosto angelical e infantil num corpo milimetricamente perfeito. Nadando contra a maré, Joss parece que irá se dar bem, mesmo porque tem grandes chances de continuar sendo muito bem conceituada no meio musical, não só como mais um "rostinho bonito", mas, sim, por ser talentosa e cantar muito melhor do que qualquer Beyoncé, Christina Aguilera e Britney Spears. O tempo irá porvir.
Dollores O`Ryordan – Vocalista do Cranberries
Vocalista da banda The Cranberries desde 1990, Dollores é uma mulher muito diferente da maioria. Inglesa, dona de um timbre de voz ímpar, ela sempre manteve seu visual diferente das tendências de época. Dollores já teve cabelo raspado, loiro, comprido, preto, castanho etc. Mas, mesmo com um cabelo muitas vezes de gosto duvidoso, sua beleza jamais foi ofuscada, pois seu rosto de traços finos é de uma beleza impossível de ser abalada. Corpo belo, nada de muito exagerado, voz de timbre único, rosto lindo, entre outros atributos musicais fazem de Dollores O’ Ryordan, além de uma Musa, uma mulher talentosa.
Essas mulheres demonstram, claramente, que não é necessário dançar libidinosamente, vestir roupas 14 números menores do que o normal e nem sequer precisam posar nua ou viver em clínicas de cirúrgia plástica realizando milhares de reparos estéticos. Elas deixam claro que a beleza natural é mais recomendável e saudável, tanto para mente (pois não são mulheres "fúteis"), quanto para o bolso, entende?
Aviso
Olá mínimos visitantes do hemorragia. Quero lembrá-los de jamais esquecer de assinar os comentários, pois um indíviduo comentou sobre o post do Van Halen, e não tenho a mínima idéia de quem seja. Não esqueçam, e, se possível, ponham e-mail e blog, web page etc...
Fascinantes Idéias
Um dia desses, num bar, jogando sinuca, bebendo cerveja, comendo amendoim e conversando sobre todo tipo de assunto possível, meus amigos e eu tivemos "fascinantes idéias" que, talvez, nunca se realizarão. Uma delas surgiu de uma citação de Marcelo.
-Temos que arranjar bons empregos o mais rápido possível. Para que possamos alugar uma casa e morarmos juntos.
Essa citação de Marcelo, sem dúvidas, deve ser levada em consideração em qualquer turma. Todos garotos têm vontade de morar com seus amigos, com a principal finalidade, lógico, de fazer festas sem ter de pedir permissão aos pais. Essa fascinante, porém, simples idéia, até tem potencial para acontecer, basta saber quando.
Passado trinta minutos, três cervejas e quatro pacotes de amendoim da última fascinante idéia, surge mais uma possível realização com a mesma naturalidade e engenhosidade da primeira. A segunda "fascinante idéia" consistia numa aposta, lançada por Blossom.
-Quem será que vai ser o primeiro a se casar? Vamos apostar na ordem que os casamentos se concretizarão?
Com o consentimento de todos, lançamos nossas apostas. Com o mesmo consentimento, o primeiro a se casar, segundo Marcelo, Blossom, Raphael e eu, seria Rodrigo, um amigo nosso que não compareceu ao bar neste dia. Porque?
Por que ele está apaixonado por uma garota que conheceu há uma semana, e que, pelo andar da carruagem, será sua futura esposa, indubitavelmente. Caso não seja ela a "felizarda", a substituta dela fará esse papel. Rodrigo se apaixona com a mesma facilidade de abrir uma garrafa pet de 2 L.
A aposta, assim como as outras idéias, só teve o intuito de entreter - ela nunca foi legitimada. Mas nem foi necessário tal legitimação, o primeiro a se casar, pelo menos, já estava mais do que escolhido.
Nos dias que se passaram, Rodrigo continuava sem aparecer no Bar. A sinuca, a cerveja e o amendoim já não faziam parte da sua vida. E nós, os quatro garotos solteiros da turma, nos esbaldávamos em nos divertir como legítimos botequeiros.
Uns três anos já se passaram, Rodrigo já se casou, Rapahel também. No entanto, Rodrigo também já se divorciou. Marcelo, Blossom e eu continuamos jogando sinuca, bebendo cerveja e comendo amendoins. Porém, agora, Rodrigo está de volta a essa rotina. E Rapahel, nos abandonou, mas pelo menos acertou o primeiro a se casar.
Esquecemos dos planos de morarmos juntos, mas, não nos esquecemos de freqüentar o mesmo bar de outrora. Zé Pelúcio, dono do bar, já contava com cerca de 60 anos, mas, felizmente, com o mesmo bom humor e o bom atendimento de anos atrás.
O amendoim já me causava gastrite. A cerveja aumentava gradativamente a circunferência abdominal de todos. E a sinuca, ah a sinuca, essa nunca nos causou mal algum, a não ser, claro, nos surrupiar uns suados Reais. Não importa.
O amendoim fora sendo substituído por um outro produto. Agora, no nosso rol de amigos, a gastrite já não era particularidade minha. E o que mais se ouvia em nossa mesa, eram gritos de solteirões, de débil saúde, pedindo a Zé Pelúcio.
-Um Engov... Uma cerveja e mais três fichas.
Helder Maldonado
Autópsia
Led Zeppelin IV
1971
Atlantic Records
Você já ouviu falar em uma "bandinha" chamada Led Zeppelin?E por acaso você já ouviu o disco Led Zeppelin IV? Não? Então está perdendo a chance de agradar aos seus ouvidos com uma das mais belas obras-primas do Hard-Rock em todos os tempos.
O cd começa com a porrada "Black Dog", uma música que contém um dos riffs mais poderosos de toda história do rock e de Jimmy Page.A segunda faixa, é a "bluesy" "Rock`n Roll", com fenomenais passagens de bateria do impressionante John Boham. Uma música épica.
A terceira faixa vai num âmbito mais experimental, com direito a Jimmy Page tocando Bandolim etc.Chama-se "The Battle of Evermore"
Na faixa número 4, encontramos um dos maiores, senão o maior sucesso do Led Zeppelin, "Stairway to Heaven". Esta música, realmente dispensa comentários, tamanha popularidade e técnica de que ela contém(e de boatos também, já que constantemente, mesmo atualmente, a música é muitas vezes citada como uma canção repleta de mensagens subliminares).
Na faixa número 5, "Misty Mountain Hop", uma melodia mais animada e festiva impera. Destaque para o baixo de John Paul Jones e do vocal bem colocado de Robert Plant.
"Four Sticks" , é uma música de batidas tribais na percussão e bateria , que faz com que os outros instrumentos a siga.
"Going to Califórnia", começa como uma balada, com um belo dedilhado de Jimmy Page e segue num estilo meio progressivo. Interessante.
Fechando o disco, "When the Levee Breaks", não deixa a desejar em nenhum momento.Com uma bela incursão de gaita de Robert Plant e, como sempre, um belo trabalho dos 4 Led´s – Robert Plant, Jimmy Page , John Paul Jones e John Boham.
Apesar do disco ter apenas oito músicas, são músicas indispensáveis, que não ganham o rótulo em nenhum momento de uma música sem razão para estar em "Led Zeppelin IV".
Nota 9
Track List
1-Black Dog
2-Rock and Roll
3-The Battle of Evermore
4-Stairway to Heaven
5-Misty Mountain Hop
6-Four Sticks
7-Going to California
8-When the Levee Breaks
Só Existe Barulho Perante o Silêncio.
Só Existe Barulho Perante o Silêncio. Quem já pensou no silêncio de dormir e, no entanto, no sono ser interrompido por um barulho, mais precisamente, por um pesadelo? E se esse pesadelo for verossímil? E se acordado, as dores forem mais fortes do que quando se está dormindo?
Tudo isso não passa de realidade e cotidiano na vida de todos, porém, muitos nem sequer sabem aproveitar o momento(muito menos os sonhos). Está certo, que quem tem pressa não se interessa, mas quem espera, não se valoriza. É óbvio que os sonhadores são muito mais analistas do que os engenhosos, que por sua vez, não passam de sonhadores, mas analisar muito profundamente não pode vir a causar um certo mal ¿ estar? È nesse âmbito que pode se demonstrar que uma pessoa, só pode realizar seus mais poderosos anseios em clima de superficialidade, para, no entanto, não perder tempo e nem chances.
O importante, então, é nunca se aprofundar demais em qualquer que seja o tema, em qualquer que seja a ocasião, atividade ou relacionamento.Pois, o que mais importa é a inocência que se tem nas coisas. Para consolidar essa afirmação, vide a infância, quando não se tem malícia e simplesmente se é portador de inocência, que indubitavelmente, é a causadora da felicidade dessa época da vida. Perceba o quão sonhadora uma criança é. Não é a toa que a nossa gramática sempre ganha em complexidade com o repertório infindável de criar de um ingênuo fanfarrão. Nada é analisado na puerícia. Nada é muito profundo. Nada realmente importa mais, do que sermos parecido com o sujeito símbolo de nossos sonhos. As crianças são tão pós-modernas, e não tomam conta disso, nem sequer sabem ou saberão o que isso significa. Mas, toda a diversidade de atividades e opções infantis, não são falta de personalidade. É transcendentalidade pura. Quando elas acordam, e percebem que a vida, fora do estado imaginário e indolor é difícil, elas recorrem a aparatos que possam transportá-las novamente para a fase pueril. Esses aparatos já não são mais naturais, eles são comprados, eles são vendidos, para que, este homem, sempre em busca da fuga do real, volte à realidade, àquela realidade desacordada.
Mas, já é tarde, as crianças estão viciadas nesse transporte, e não importa a quanto tempo que a infância não se apresenta em formas coloridas, sempre haverá um alguém com pedaços de infância engarrafada, empacotada, prensada e, de diversas mais formas. Demência, escuridão e falta de coragem, podem ser sinônimos do homem que hoje não é mais criança e, que adoraria ser novamente. Esse homem, que não conhece as ¿novidades¿ em relação a isso, pode crer, são pessoas bem chatas, são puritanos e dispensam a molecagem, unicamente para enfrentarem cada parte da vida como ela deve ser, como algum caudilho arrogante o impôs. Deve ser assim, para ele. Pois para a maioria, não há importância alguma em fumar um pouquinho de infância, ou beber, lá no fundo do quintal, com todos os infantis adultos, uma infância com espuma, bem gelada, claro!
Helder Maldonado
Autópsia
Van Halen
Warner Bros
1978
Uma das bandas mais importantes e influentes do hard rock, com certeza é o Van Halen. O Van Halen, na época de seu primeiro lançamento tinha como integrantes: Eddie Van Halen (Guitarra); Dave Lee Roth(Vocal), Michael Anthony (baixo ) ; e Alex Van Halen( Bateria). Filhos de holandeses erradicados nos E.U.A, os irmãos Van Halen dão início as suas carreiras musicais ainda crianças, com Eddie tocando piano e Alex, guitarra. Quando entraram na adolescência, Eddie tomou a decisão de tocar guitarra, e seu irmão, conseqüentemente, começou a tocar bateria, o que pelo visto, foi uma boa opção. Dessa forma, começava a nascer o embrião do Van Halen.
Em busca de formar uma banda, Eddie e Alex recrutaram seu amigo Michael Anthony para o baixo. Sem um vocalista, a banda, procura incessantemente por um. Até que encontram o espalhafatoso Dave Lee Roth. Com merecido destaque no cenário underground americano, o Van Halen é "descoberto" por Gene Simmons, guitarrista o Kiss, dando um senhor empurrão no advento da gravação do primeiro LP da banda. Com uma projeção na mídia e um apadrinhamento de uma banda de considerável fama como o Kiss, o caminho para o sucesso do Van Halen estava aberto. Porém, se caso o Van Halen não contasse com essa ajudinha não ficaria muito mais difícil para a banda chegar aonde chegou com o primeiro disco, aclamado pelo público e principalmente pela crítica, fruto da performances ao vivo e pelas técnicas de piano usadas por Eddie na sua guitarra originalìssma, com partes de diferentes guitarras, apelidada de Frankestein.
O disco
O disco abre com Runinn With The Devil, com um riff bem original e um solo simples, porém, bem sacado. A segunda faixa é na verdade um egocentrismo de Eddie, mostrando tudo o que é capaz de fazer com uma guitarra em punhos, misturando várias técnicas, e trazendo à tona novamente uma técnica utilizada na Renascença conhecida como Tapping ou Two Hands. Na Faixa três, temos um cover da legendária banda The Kinks, a música ´´You Really Got Me", dispensa comentários. A faixa 4, é a detonadora Aint Talk About Love, com um riff montado sobre Am e intersecções maravilhosas na guitarra. Fechando o lado A, a música "I´m The one", com Eddie sendo impecável nas suas técnicas.
O Lado B, começa com a música mais arrastada e chata do disco, "Jamies Cryin". A segunda faixa é a pulsante "Atomic Punk", com elemetos eltrônicos marcando a música , um vocal rasgado de Dave Lee Roth, e uma bateria bem colocada de Alex. A música "Feel Your Love Tonight", é uma faixa de altíssimo bom gosto. A baladona do disco fica por conta de Little Dreamer, com todos os instrumentos no ponto para não se perder numa balada romântica. Há outro cover no disco, da música "Ice Cream Man", é de autoria de John Brim. A música é um Country Rock bem construído ritmicamente, destaque para os solos de Eddie. A música que fecha o disco é "On Fire", que consagra Michael Anthony nos Back´n Vocals, e se mostra uma forte concorrente como uma das melhores do disco.
Com Certeza um clássico desde o lançamento até os dias de hoje.
Nota: 10
Track List
1- Runnin´ With The Devil
2- Eruption
3- You Really Got Me
4- Ain´t Talk About Love
5- I´m The One
6- James Cryn'
7- Atomic Punk
8- Feel Your Love Tonight
9- Little Dreamer
10- Ice Cream Man
11- On Fire
Ultraje a Rigor: Precursor do Hard Core "Metido a Engraçadinho"
Desde o início da década de 90, que vêm tendo muito boa aceitação por parte dos adolescentes, o "Hard Core Metido a Engraçadinho", principalmente por parte dos adolescentes "MTV maníacos". Grandes nomes que são expoentes deste seguimento são: Offspring, Green Day, Blink 182, Sum 41, Smash Mouth, Raimundos, Virgulóides, Mamonas Assassinas entre outros. O problema é que poucos desses adolescentes sabem que há muito tempo atrás, numa década na qual, se tratando de rock brazuca, quase tudo aconteceu, havia uma banda que já fazia este estilo engraçadinho, tocando músicas que eram ou beiravam o hard core, estou falando de Ultraje a Rigor(que além de hard core, têm influências de rock´n roll e blues).
O leitor pode pensar, que estou sendo um ufanista que apenas quero defender que o Brasil, coitado, sempre lança algo inovador, e por falta de divulgação, são os gringos que ficam com o mérito(o que em alguns casos não deixa de ser verdade), porém não é nada disso. Essa explosão "hard core metido a engraçadinho" que existe atualmente, teve como marco zero direta ou indiretamente, o disco de estréia do Ultraje, "Nós Vamos Invadir Sua Praia" de 1985. O disco, considerado um fenômeno até hoje, por ser um dos poucos discos lançados por uma banda brasileira que contam com sucessos radiofônicos quase que em sua totalidade. Alguns exemplos disso são: Ciúme, Zoraide, Jesse Go, Rebelde Sem Causa, Inútil etc.
Quem viveu os anos 80, com certeza, está desabrochando lágrimas tristes este momento ao ler esta matéria e ao relembrar a época em que as bandas não eram tão profissionais a ponto de montar seus próprios selos. Mas isso é discussão para uma outra pauta. O porque de se estar defendendo o Ultraje, é simplesmente óbvio: o conteúdo das letras das músicas, e a irreverência que sempre demonstrou o ¿pseudo gênio¿ e líder do Ultraje, Roger Moreira. Roger, um paulista, multi instrumentista, modelo fotográfico da Revista G em uma oportunidade, detentor de diversos cortes de cabelo de gosto duvidoso ao longo da carreira e com certeza um "craque" de talento ímpar no Rock Gol MTV, sempre teve a ironia como ponto principal nas letras e atitudes do Ultraje a Rigor.
A tríplice coroa do Ultraje fica por conta dos três primeiros discos: 1985 "Nós Vamos Invadir Sua Praia", 1987 "Sexo" e 1989 "Crescendo", esse, o único com uma letra beirando a seriedade ("Crescendo II- A Missão (Santa Inocência)"). Esses são os principais motivos pelos quais essas bandas de "Hard Core Metido a Engraçadinho", não passam de mero plágio não intencional do Ultraje a Rigor( no caso das bandas nacionais, talvez até sejam plágios intencionais...).
Mas porque o Ultraje não foi realmente o ponto de partida para esse movimento no Brasil e no mundo? Primeiramente, porque banda de rock alguma do Brasil jamais conseguiu lançar estilo qualquer que fosse para fora do território tupiniquim, no máximo lançar seu nome, jamais algum estilo. Segundo, porque na época não existia MTV no Brasil, o que dificultava a criação do complemento essencial desse estilo de música em questão, o Vídeo Clipe. Vide que bandas como Blink 182, Green Day e Offspring, ficaram muito mais famosas no início de suas carreiras por causa de seus Vídeo Clipes ¿engraçadinhos¿, do que pela própria música. O que se espera, é que as bandas brasileiras recebam mais valor e investimento de gravadoras, para que possam fazer no mínimo no Brasil, cenas interessantes e estilos próprios como o esquecido Mangue Beat.
Uma ressalva justa ao Ultraje, é a de que, o Ultraje não é uma banda metida a engraçadinha, realmente é irônico a forma de gozação utilizada em suas letras, portanto o Ultraje, é "Hard Core - Rock - Blues Engraçado" e não metido a tal, e tenho dito. Caso queira conferir de uma forma mais cabível de se encontrar disponível, ouça os últimos singles da banda(Me Dá Um Olá(trilha da novela Global "Malhação") e Domingo eu vou Pra Praia).
Será Que Somos Normais?
Ser normal, é algo muito subjetivo, mesmo porque, para alguns, escutar axé é super normal, enquanto para mim, até escutar Detonautas é um ato de insanidade , mas enfim, gosto e loucura são coisas muito individuais. Mas em algumas coisas, muitas pessoas entram em consenso, porém com medo de represálias, escondem de todos. Aí embaixo segue uma lista de atos, que pelo menos 50% da população gosta, faz, fez ou irá fazer.
- Pegar emprestado livros, e, jamais devôlve-los.
- Fingir que só está dando uma circulada entre os canais de TV, para assistir ao "Teste de Fidelidade" veiculado no programa do João Kleber, ou qualquer outra mixórdia televisiva.
- Ir ao banheiro no inverno, e molhar apenas as pontas dos dedos, como forma de evitar a água fria nas mãos que custarão a esquentar novamente.
- Encoxar a gostosona à sua frente em qualquer tipo de transporte que seja. - Comer suco em pó ou leite em pó.
- Gostar de sentir o cheiro da chuva, quando esta cai na terra.
- Gostar de sentir o cheiro de Gasolina. - Estralar os dedos dos pés e das mãos. - Roer as unhas. - Cutucar o nariz e limpar debaixo da cama(admita, você já fez isso).
- Andar pelas calçadas sem pisar em listras
- Cheirar a meia após tirar o sapato, só como um método de confisco - chulé.
- Tirar os cabelos do sabonete com as unhas.
- Assistir Tv, estar conectado à internet, ouvir rádio, e telefonar (tudo ao mesmo tempo). Isso que é interatividade.
- Assistir aos filmes clássicos das tardes dos anos 80/90: "Três solteirões e um bebê" , "Olha quem está falando"; "Férias Frustradas em..."; "A Lagoa Azul", "Christine o Carro Assassino", "Riquinho", "Esqueceram de Mim", "Marcas do Destino", "Anjo Malvado", ou, algum filme com as gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen, entre outros ...
Enfim, essas são só algumas das manias e/ou insanidades que temos, mas prometo que se lembrar de mais alguma coisa, dou uma continuidade a esse acúmulo de baboseiras.
Helder Maldonado
Resenhas
Engenheiros do Hawaii "Dançando No Campo Minado"
Lançamento : 2003
Gravadora: Universal
Site:
www.enghaw.com.br
Novamente, Humberto Gessinger, o compositor principal dos Engenheiros do Hawaii, consegue lançar um álbum coeso, direto e com qualidade superior à maioria das bandas mais POPS do cenário rock nacional. Elementos modernos são percebidos no disco, como inserções eletrônicas na música "Fusão a Frio",e faixas que flertam com o Hardcore, como: "Duas Noites no Deserto", "Rota de Colisão" e a faixa título "Dançando no Campo Minado". Os destaques do disco ficam por conta de "Camuflagem" com um explosivo Riff de Paulinho Galvão, da poética "Dom Quixote", e da típica balada semi progressiva dos Engenheiros "Outono em Porto Alegre". Pelas três faixas em destaque o disco já vale a audição e o lançamento. Sem dúvidas, os Engenheiros do Hawaii continuam sendo a única banda da geração de 80 que consegue manter uma certa média qualitativa nos seus trabalhos.
Melissa Auf Der Maur "Auf Der Maur"
Lançamento: 2004
Gravadora: EMI
Site:
www.aufdermaur.com
Melissa Auf Demaur, começou sua carreira tocando em bandas pequenas no Canadá, seu país natal. Descoberta por Billy Corgan (ex - Samashing Pumpkins e Zwan), foi indicada a substituir a baixista do Hole, banda de Courtney Love , na qual Melissa atuou no disco Celebrity Skin, indo depois para o Samshing Pumpkins, aonde gravou apenas um álbum, que nem sequer foi lançado. A ruiva Melissa Auf Der Maur, adotou seu sobrenome como nome da banda, para o lançamento do seu primeiro disco em carreira "quase" solo, já que o disco conta com muitas participações de medalhões do rock americano, como Billy Corgan e Josh Homme do Queen of Stone Age entre outros . Melissa aposta em misturas entre new - metal, grunge, heavy metal e pop rock. O Destaque do disco fica para a já estouradíssima na MTV "Followed The Waves", música que conta com um clima denso e depressivo, típico do grunge, com guitarras graves e pesadas(ambiente sonoro presente quase no disco inteiro).Uma outra boa música é "I´ll Be Anything You Want", que bebe diretamente na fonte Pixes - Nirvana. "Real a Lie" e "Lightinig Is My Girl", são duas músicas que valem pelo vocal, ora sussurrado, ora melódico de Melissa, que contrastam com as guitarras pesadas e surtem um efeito bacana. O disco, não é nenhum achado de criatividade, pelo menos não desaponta os órfãos do malfadado Grunge, principalmente os órfãos do Alice In Chains.
The Darkness "Permission to Land"
Lançamento : 2003
Garvadora: Warner
Site:
www.thedarknessrock.com
Você com certeza já deve ter ouvido falar da última sensação do rock, denominada, The Darkness. Esse quarteto, composto por: Justin Hawkins - vocal, guitarra solo e sintetizador, Dan Hawkins - guitarra base, Frankie Poullain - Baixo e Ed Graham - Bateria confirmou, juntamente com o Hellacopters, que o Hard Rock ainda tem forças para angariar fãs. Permission to Land, primeiro disco da banda lançado em Julho de 2003 no Reino Unido, é um deleite para os ouvidos. O vocal engraçado/exagerado de Justin Hawkins é a marca registrada do grupo, que misturado com guitarras bem sacadas, e algumas vezes clichês de Hard Rock,dão o tom da "diversão" musical.Segundo Justin, esse exagero vocal é intencional, e de certa forma uma sátira para com as bandas de Heavy Metal Melódico. As faixas que mais merecem ser ovacionadas, são com certeza, "Love is Only a Feeling", balada bem trabalhada com violões, back´n vocal, bandolim e guitarras, "I Believe in a Thing Called Love", que dispensa apresentações, "Get Your Hands Off My Woman", música na qual pode se constatar quase na sua totalidade, o quão insano é o vocal de Justin Hawkins e a balada "Growing on Me" que conta com um vocal "quase normal" e com um solo bem bacana. Que voltem os cabelos bem escovados, calças de couro apertadas e maquilagem pesada nos rostos rock´n roll!!!
Incubus "A Crow Left Of The Murder"
Lançamento : 2004
Gravadora: Sony - Epic
Site:
www.enjoyincubus.com
O Incubus foi formado em 1991 na Califórnia, contando com um som repleto de influências, que vão do Funk ao Metal, passando pelo Hip Hop.A banda passou por um longo caminho até ser reconhecida nos E.U.A. (1996) e depois no resto do mundo (1999). A música que apresentou o Incubus para o Mundo foi "Drive", uma balada irresistível aos ouvidos de qualquer um. Mas, o reconhecimento geral, veio em 2004 com o lançamento de "A Crow Left of The Murder", álbum que catapultou o Incubus para lista dos "dez mais" da Billboard. O primeiro single do álbum, é o protesto anti - governantes e políticos que se acham os senhores da verdade, "Megalomaniac", com clipe veiculado e incansavelmente exibido na MTV Brasil. No disco há músicas interessantes, como a semi new-metal "ACrow Left of The Murder", que conta com um dos melhores Riffs do Incubus, e com ótimas ambientações eletrônicas.Destaque também para "Agoraphobia" que deixa todos numa interminável expectativa de que a música irá ficar pesada, expectativa que é desapontada, pois a música se mantém leve até o fim. Ótimo disco para ler as letras das músicas e refletir, já que é o disco mais contestador e experimental do Incubus.
O Início
Olá moderninhos-emergentes de plantão, entra no ar, pela Hemorrgia Inc. mais um blog ridículo. Caso queiram entra em contato comigo, seja por se sentir ofendido, seja para me elogiar, implorem, caso contrário, não os atenderei.